segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Partidas


Okuribito, Japão, 2008, Tyojiro Akita

Em pequenas cidades do Japão, de tradição mais presente, há um cerimonial de preparação de corpos para funerais. Okuri: levar, bito: pessoa, que aqui, gosto mais da versão para Partidas. A partida maior e inexorável a que estamos todos fadados e a partir da qual, a recusá-la, se constroem as vidas e a coleção de trajetos que concebemos, para algum sentido dar a esse passatempo nonsense.
Daigo faz o retorno da metrópole à terra natal, morto o sonho de grande virtuose, para no desencanto e na apatia reencontrar sua dor, sua história e o perdão libertador. E redescobrir a arte, o talento e novos sentidos, justamente em cuidar da grande partida.
A beleza maior de Okuribito está nas sutilezas, nos sinais (o polvo semimorto, a migração dos salmões, o cello infantil versus “o cello pesado demais”, os seixos trocados à beira do rio, as personagens - vivas ou não - que se cruzam), na reflexão existencial inevitável, e
, no interessante timing japonês e delicada fotografia (que dispensaria absolutamente os momentos videoclipe).

sábado, 7 de novembro de 2009

O Fado

Fados de Carlos Saura, (2007) é um documentário especial. Tem o precioso toque do mestre. Em cenários reais belamente iluminados, o hoje dança com a lembrança revelada ao fundo, nos telões. Gestos e vozes entrelaçam origens, a tradição (o castiço), os desdobramentos.
Certas passagens são comoventes para mim. A Rua do Capelão surgindo surpreendente na voz de uma lindíssima e jovem Cuca Roseta, junto aos fragmentos do filme (um clássico dos anos 30) sobre a vida da mítica Severa. Caetano Veloso em uma leitura de Estranha Forma de Vida que, em falsete e acento luso, entendo como afetuosa antropofagia. E Amália, a minha voz fetiche, em um momento descontraído de ensaio, o rosto lindo da minha infância, da raiz que tanto prezo e que tudo me explica.


"Ó gente de minha terra, agora que eu percebi,
esta tristeza que trago...
foi de vós que recebi. "


Querida e inesquecível tia Etelvina, artífice do meu fado.



domingo, 1 de novembro de 2009

Beltane

De toda brasa,
[daquela que arde em fogueiras a guiar e honrar o Verão ou daquela, entre árvores, refletida no rubor da dança, do vinho, do riso, do gozo]
a centelha da esperança.
Do primeiro orvalho o viço
e das flores os néctares e essências mais fortes
para renascer,
tudo o que já morre em mim.

domingo, 25 de outubro de 2009

Prazer e beleza


Lorette com xícara de café
Sensualidade e luz

Paisagem da Bretanha


Matisse Hoje

Pinacoteca do Estado de São Paulo

Até 01/11/2009




E espanto


Fórmula de Primavera de Pavel Filónov



Fiorde Christiania de Vladímir Baránov



Virada Russa

Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo

Até 15/11/2009

Sempre o primeiro olhar, a descoberta da criança. Como acreditou Matisse.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

1956

Jeanne Moreau, Jules & Jim

(Em seis de outubro de 56 era primavera, talvez com sol também, como hoje.)


Aniversário em companhia de duas joaninhas cor de caramelo salpicado de preto, passeando em minhas sandálias. De presente a claridade, entre os galhos destas tantas árvores, destilando saudades daquele pinheiro eterno do quintal da infância, sombras e cheiros de suas agulhas, da casca rústica, da resina, da umidade do chão. Cheiros, cheiros tantos. Da casa morna e silenciosa depois da faxina das sextas-feiras, proteção e esperança. E das folhas oleosas do eucaliptal onde fazíamos piqueniques, a dois passos de casa, mas uma aventura recheada de limonada com groselha e colares de contas-sementes.

Poderia não doer.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O eu

Todos os dias a música alta, vomitada do celular, do mp, do radinho tosco de alguém.
Eu exibo, empurro, sobreponho, existo e lhe ignoro.
Enquanto comemora a propaganda: “nunca se ouviu tanta música!”. Fruição ou devoração? Um repertório lapidando-se ou panfletagem vazia?

No trem, no ônibus, nas ruas, entre irritação e desencanto faço-me estas perguntas todos os dias (e hoje tenho um "salvador" radinho tosco com fones)

É assim também na fotografia digital, pipocando 24 horas. “Eu vejo como uma banalização. Porque mais de 90% do que as pessoas fazem é jogado fora, ou seja, a pessoa passa a foto que ela fez no celular para o computador, vê uma vez só, nunca imprime e depois joga fora” (palavras lúcidas de Fausto Chermont, fotógrafo). Que registro é esse? afetivo? com alguma preocupação estética? ou uma frenética coleção de instantes (e desejo de posse do que já vem morto, porque não se “viveu” a festinha de escola das crianças ou o allegro da 9ª na igreja).

Tempo das superficialidades. Tudo rápido, fragmentado, pequeno. Afinal, por que aprofundar-se no descartável?
Tempo banal. Banalizado é o gosto, o olhar, a escuta, o pensar, o sentir, o outro, o eu.

Equinócio para Eostre

Que venham a luz e o equilíbrio e a alegria e a paixão, porque hoje é festa e também porque aqui nasci. Ostara!

O sábio

Quando penso já perdidas minhas crenças e no animal extinto que sou, ler este grande sábio e mestre da beleza devolve alguma esperança.

"Sangue em Chiapas
Todo o sangue tem a sua história. Corre sem descanso no interior labiríntico do corpo e não perde o rumo nem o sentido, enrubesce de súbito o rosto e empalidece-o fugindo dele, irrompe bruscamente de um rasgão da pele, torna-se capa protectora de uma ferida, encharca campos de batalha e lugares de tortura, transforma-se em rio sobre o asfalto de uma estrada. O sangue nos guia, o sangue nos levanta, com o sangue dormimos e com o sangue despertamos, com o sangue nos perdemos e salvamos, com o sangue vivemos, com o sangue morremos. Torna-se leite e alimenta as crianças ao colo das mães, torna-se lágrima e chora sobre os assassinados, torna-se revolta e levanta um punho fechado e uma arma. O sangue serve-se dos olhos para ver, entender e julgar, serve-se das mãos para o trabalho e para o afago, serve-se dos pés para ir aonde o dever o mandou. O sangue é homem e é mulher, cobre-se de luto ou de festa, põe uma flor na cintura, e quando toma nomes que não são os seus é porque esses nomes pertencem a todos os que são do mesmo sangue. O sangue sabe muito, o sangue sabe o sangue que tem. Às vezes o sangue monta a cavalo e fuma cachimbo, às vezes olha com olhos secos porque a dor lhos secou, às vezes sorri com uma boca de longe e um sorriso de perto, às vezes esconde a cara mas deixa que a alma se mostre, às vezes implora a misericórdia de um muro mudo e cego, às vezes é um menino sangrando que vai levado em braços, às vezes desenha figuras vigilantes nas paredes das casas, às vezes é o olhar fixo dessas figuras, às vezes atam-no, às vezes desata-se, às vezes faz-se gigante para subir às muralhas, às vezes ferve, às vezes acalma-se, às vezes é como um incêndio que tudo abrasa, às vezes é uma luz quase suave, um suspiro, um sonho, um descansar a cabeça no ombro do sangue que está ao lado. Há sangues que até quando estão frios queimam. Esses sangues são eternos como a esperança.
Acteal
Quase doze anos são passados já sobre a matança de Acteal, no sudeste do Estado mexicano de Chiapas. No dia 22 de Dezembro de 1997, quando os membros da comunidade tzotzil de Las Abejas se encontravam reunidos para rezar na sua humilde capela, uma construção rústica de tábuas mal aparelhadas e sem pintura, noventa paramilitares do grupo Máscara Roja, expressamente levados ali, munidos de armas de fogo e machetes, num ataque que durou sete horas, deixaram no terreno, entre homens, crianças e mulheres, algumas delas grávidas, 45 mortos. A culpa destes mortos havia sido terem apoiado o Exército Zapatista de Libertação Nacional. A 200 metros do local, um controle de polícias não moveu um pé para ir ver o que se passava. Demasiado o saberiam eles. Estivemos em Acteal, Pilar e eu, pouco tempo depois, falámos e chorámos com alguns dos sobreviventes que tinham conseguido escapar, vimos os sinais das balas nas paredes da capela, os lugares das sepulturas, assomámos à entrada de uma cavidade na encosta onde umas quantas mulheres haviam tentado esconder-se com os filhos e onde foram assassinadas com eles a golpes de machete e rajadas à queima-roupa. Voltámos a Acteal uns meses mais tarde, o horror ainda se respirava no ar, mas justiça iria ser feita.Afinal, não. Alegando erros de processo, o Supremo Tribunal de Justiça mexicano acaba de pôr em liberdade quase vinte dos membros de Máscara Roja que cumpriam pena (imagine-se) por porte ilegal de armas, deliberadamente se ignorando que essas armas tinham disparado e assassinado. À meia dúzia deles que ainda estão na prisão, não tardará muito que os soltem também. Mas aos 45 tzotiles mortos com extremos de crueldade, a esses é que não haverá maneira de os fazer ressuscitar. Ainda há poucos dias tinha escrito aqui que o problema de justiça não é a justiça, mas os juízes. Acteal é uma prova mais.
Jogo sujo
Jovem e ingénuo era quando há muitos, muitíssimos anos, alguém me convenceu a fazer um seguro de vida, sem dúvida do mais rudimentar que então se praticaria, vinte contos que me seriam entregues passados vinte anos no caso de não ter morrido, claro está, não ficando a companhia obrigada a prestar-me contas dos eventuais lucros do minúsculo investimento e suas aplicações e muito menos fazer-me participar deles. Ai de mim, porém, se não pagasse os prémios respectivos. Nessa época, os vinte contos eram muito dinheiro para mim, necessitava trabalhar quase um ano para ganhá-los, e portanto fizeram-me bom arranjo quando mos pagaram, mas o que não pude foi evitar um desagradável sentimento de desconfiança que me dizia, e insistia, que eu havia sido prejudicado, embora não soubesse exactamente como. Nessa altura não era só a chamada letra pequena que nos enganava, a própria letra grande já era um punhado de poeira atirada aos olhos. Eram outros tempos, a gente comum, na qual eu me incluía, sabia pouco da vida e mesmo esse pouco de pouco lhe servia. Quem se atreveria a discutir, já não digo com o actuário, mas com o próprio angariador de seguros, que tinha a lábia toda?Hoje já não é assim, perdemos a inocência e não fugimos a discutir com a maior das convicções até mesmo aquilo de que só temos uma pálida ideia. Que não nos venham pois com histórias, bem te conheço, ó máscara. O mau é que se as máscaras mudam, e mudam muitíssimo, o que está por baixo delas mantém-se inalterável. E nem sequer é certo que tenhamos perdido a inocência. Quando Barack Obama, no calor da campanha para a presidência, anunciou uma reforma sanitária que permitisse proteger os 46 milhões de norte-americanos não abrangidos pelo sistema em vigor para os restantes, isto é, aqueles que, directa ou indirectamente, pagam os seguros respectivos, esperávamos que uma onda de entusiasmo varresse os Estados Unidos. Tal não sucedeu e hoje sabemos porquê. Mal se iniciaram os trâmites que levarão (levarão?) ao estabelecimento da reforma, o dragão despertou. Como escreveu Augusto Monterroso: o dinossauro ainda estava ali. Não foram só as cinquenta companhias de seguros norte-americanas que controlam o actual sistema a abrir fogo contra o projecto, fê-lo também a totalidade dos senadores e deputados republicanos, e igualmente um apreciável número de representantes democratas, quer no congresso quer no senado. Nunca como neste caso a filosofia prática dos Estados Unidos esteve tão à vista: se não és rico, a culpa é tua. São 46 milhões os norte-americanos que não têm cobertura sanitária, 46 milhões de pessoas que não têm dinheiro para pagar seguros, 46 milhões de pobres que, pelos vistos, não têm onde cair mortos. Quantos Barack Obama ainda vão ser necessários para que o escândalo termine?"

O Caderno de Saramago, posts.

domingo, 20 de setembro de 2009

Cine

Il y a Longtemps que je T’Aime, de Philippe Claudel. A interpretação da inglesa Kristin Scott Thomas é o filme, tragicamente expressiva, fantástica. Brilhante o bastante para iluminar um final que desanda.

E Caramelo (Sukkar Banat) da bonita e talentosa Nadine Labaki é feminino, suave. Delicada metáfora de Beirute.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

A beleza, talvez no jardim de Epicuro


... havia apenas os galhos em algazarra pelo céu. Uma pena azul como aço caiu de um deles e foi para entre as urzes. Gostava de penas de pássaros agrestes. Costumava colecioná-las, quando rapazinho. Apanhou-a e meteu-a no chapéu. O ar soprou alguma coisa em seu espírito e reanimou-o. Como os gralhos continuavam a dar voltas e a girar por cima de sua cabeça, e as penas caíam uma atrás da outra, cintilando através do ar purpúreo, seguiu-os, com a longa capa a flutuar pelos ombros, brejo afora, até a colina. Havia anos que não caminhava tanto. Tinha apanhado das ervas seis penas, e fizera-as deslizar entre as pontas dos dedos, e passara-as pelos lábios para sentir-lhes a maciez e o lustro, quando viu, brilhando na encosta da colina, um poço de prata, misterioso como o lago em que Sir Bedivere atirou a espada de Artur. Uma pena estremeceu no ar, e caiu dentro dele. Então arrebatou-a um estranho êxtase. Um selvagem impulso de acompanhar os pássaros até o fim do mundo e atirar-se na esponjosa turfa e beber esquecimento, com o riso rouco dos gralhos ressoando na altura. Apressou o passo; correu; tropeçou; as ásperas raízes das urzes atiravam-na para o chão. Tinha quebrado o tornozelo. Não se podia levantar. Mas ali ficou feliz, deitada. O cheiro do mirto dos pântanos e da filipêndula estava em suas narinas. A risada dos gralhos estava em seus ouvidos. «Encontrei meu companheiro», sussurou, entregando-se, extasiada, ao frio abraço da erva, envolta em sua capa, na cova junto ao poço. «Aqui ficarei.» (Uma pena caiu-lhe na testa.) «Encontrei um loureiro mais verde que os louros. Minha testa terá frescura para sempre. Estas são penas de pássaros bravios – de corujas, de andorinhas noturnas. Sonharei sonhos fantásticos. Minhas mãos não usarão anel de casamento», continuou, retirando o que tinha no dedo. «As raízes se enroscarão nelas. Ah !», suspirou, afundando a cabeça com delícia na sua fofa almofada, «Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdi-a; o amor, não o conheci; a vida – e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres», continuou, «não entendi nenhum. É melhor que aqui fique em paz, só com o céu por cima de mim – como o cigano me disse há tempos.»

Orlando, Virginia Woolf

domingo, 2 de agosto de 2009

Sanyasa?


Que melhor maneira haveria para celebrar Imbolc (o 1º de agosto do despertar pela luz do sol, da beleza, do desapego) do que um domingo ensolarado, que rompeu as sombras destes dias, entre as árvores, bichos, crianças e casais do Parque Central e as belíssimas notas da Osesp? Notas repetidas, porque as ouço no inconsciente, plantadas que foram por aqueles vinis da infância, Bolero, O Morcego, as danças do Príncipe Igor e, hoje, a certeza daquilo que é definitivo e certo em mim, talvez o que de fato importe e possivelmente salve. Chorado em lágrimas antes de gozo que de saudade, que se há, é do melhor que poderia ter sido, sentado aqui, ao lado, neste gramado.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Paisagens e preciosidades


Paisagens Silenciosas, todas as coisas dão frutos, cor
Lucila Wroblewski
Caixa Cultural Sé
Até 09/08/2009


Florescência, Luminância, Vestígio é como Lucila organiza este seu interessantíssimo trabalho, que propõe, conforme declara no catálogo (muito bem cuidado e com bonito texto-abertura de Alice Ruiz), captar o instante existente entre as ações, as cenas que acontecem no silêncio dessa dimensão. Talvez o subjetivo.

São imagens de beleza singular. Movimentos iluminados por luzes naturais, quase noturnas, e pela que produz a mão da artista, light painting. O resultado é às vezes lírico (gosto das Florescências 02, 20, 24 e dos Vestígios 01, 08, 13) ou surreal, mas sempre inquietante, encantador. Fotógrafa-poeta de primeira, para se saber mais, ver, estudar.

Foto Cine Bandeirantes – 70 anos
Centro Cultural São Paulo
Até 30/08/2009

Acervo histórico do antigo fotoclube. Tem coisas interessantíssimas de Geraldo de Barros (Marginal, movimento), José Yalenth (Energia, uma bela luz solar), Tadeu J. Cruz e Frederico Mielenhausen (curioso surrealismo), Valêncio de Barros (Ao cair da tarde, vintage, a luz solar sobre ovelhas), Raul Eitelberg (retratos setentistas de cores interessantes em locais inusitados), PBs dos mágicos German Lorca, Thomas Farkas e outros diversos artistas.
Precioso.

Jardim suspenso

No horizonte maior as montanhas, de pedra, acima e paralelas aquelas de nuvens salmão. E consigo ver um litoral. Ao meu lado e dócil, o bem-te-vi crê em minha imitação ou apenas ouve a música celta, que se ensaia no teatro de arena. Na arquitetura a tipuana e no espelho da janela daquele edifício, o avião.
junho, 2009, no jardim do centro cultural são paulo.

domingo, 19 de julho de 2009

Filmes para lembrar

Gostar de filmes foi mais um dos presentes da minha infância. Éramos levados para vê-los no cinema em São Paulo (Santo André era então ainda mais provinciana). Para mim eram dias de grandes acontecimentos, tanto que ficaram entre minhas mais felizes lembranças, posso ver-me e ver a todos, sentir cheiros e sabores, reprisar imagens, Fantasia, A Guerra dos Dálmatas, Moggli...
Algo foi plantado. E lapidei. E hoje, por diversas circunstâncias, arrisco dizer que me salvam às vezes.
E vejo-os muito. Alguns revejo sempre, já eternizados; outros verei, porque ainda busco, garimpo (a duras penas); outros apenas divertem e se perdem no esquecimento e outros ficam, dias e dias ainda depois de vistos e talvez, deles, alguns se juntem aos eternos.
  • A Valsa com Bashir de Ari Folman é uma animação, um documentário, uma biografia, um exercício catártico e um grande filme. 1982, Folman serve ao exército israelense, guerra Líbano x Israel, no momento em que 3000 civis dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila são massacrados por uma milícia cristã, em represália ao assassinato de Bashir, presidente-líder libanês. O aliado Israel teria sido, no mínimo, omisso neste episódio. E na reconstrução da memória perdida do cineasta, tudo é muito criativo, terrível e belo. As angustiantes tonalidades ocres, os traços quase distorcidos, a trilha rock’n roll, a referência ao Apocalypse Now e as metáforas certeiras (como o viajante momento da valsa do soldado em combate).




  • Três Macacos, do turco Nuri Bilge Ceylan impressiona pela fotografia dramática. É ela que olha, fala, ouve. Tons cinzas chuvosos, bonitos enquadramentos e primeiros planos conduzem os silêncios, a solidão, a tristeza da incomunicabilidade, a raiva contida naquela família. Três pessoas sobrevivendo como os três macaquinhos da fábula. Talvez encontrando-se na mentira. Como tantos de nós.



  • Peixe Grande. A inconfundível mão de encantador de Tim Burton para contar uma saga, contar do amor que não se consegue dizer e sobre escolhas possíveis entre realidade e fantasia, esse limite sutil que às vezes nos salva. Comovente. Fechado a ouro pela canção de Eddie Vedder (Man of the Hour).


  • O Silêncio de Lorna, dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. O doloroso retorno de Lorna (imigrante albanesa presa a um perverso esquema de greencard) ao mundo das sensações, à humanização é descrito com realismo e secura incômodos. Tudo vai num crescendo, costurado em sutilezas, revelando-se em surpreendentes gestos de desespero, gritos de socorro e ternura, sobre um fundo quase silencioso que só se quebra, comoventemente, na entrada da sonata de Beethoven. E como é bela e trágica esta Arta Dobroshi.


  • Com o mesmo tema espinhoso do imigrante ilegal, desta vez nos EUA pós 11 de setembro (e não na europa de Lorna), mas com uma outra abordagem, O Visitante, de Tom McCarthy. Mais doce talvez, embora duro. E extremamente valorizado por Richard Jenkins que, através da força de expressão que dá ao seu Walter, praticamente conduz toda a história.

domingo, 28 de junho de 2009

Willy Wonka

Um lugar na minha memória afetiva, das coisas divertidas, dos interesses primeiros. Os sons. Não aqueles que entraram veia afora, o erudito oferecido de presente em casa, as Dolores e Elizetes cantadas enquanto se cozinhava, a Banda, a Construção ou a Canção do Sal explodindo no rádio ou toda a escola de rock da Nora. Mas aquele das fossas juvenis, a Sonata verde chorando Never can say goodbye (ainda há o vinil!), Got to be there, Music and me ou Ben. E, mais tarde, na Tutti-Frutti de São Bernardo, Blame it on the boogie, Don’t stop 'til you get enough, Rock with you, muita luz, espelhos, curiosidade, hi-fis e peppermints. Mas, decididamente, os primeiros sinais no sentido de descobrir o divino soul.

Diante deste infame banquete-de-ossos estas lembranças vêm. Um tanto melancólicas, como são as lembranças. Como é olhar a morte dos contemporâneos, a nossa. O tempo.

E no ar um estranho desconforto, uma culpa, uma pena. Por este Gene Kelly, por este deus pop-kitsch, pelo artífice do clipe "movie", por este Willy Wonka trágico.

sábado, 27 de junho de 2009

Sonho e Ruína

“As (fotografias) das missões de São Miguel trouxeram-me boas recordações, e isso por diversos motivos; foi por ali que, na tarde de 27 de dezembro de 1942, fizemos a concentração de todas as forças que estavam espalhadas pelos municípios vizinhos, para iniciar a marcha para o norte”.
(frag de carta de Luiz Carlos Prestes para seu primo Alfredo Felizardo na prisão, 1942).

Esta é a epígrafe no catálogo da exposição do fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, das ruínas da catedral no território das Missões Jesuítas ou Sete Povos das Missões, em São Miguel das Missões, pampas do RS. Decidi transcrevê-lo porque também daí (da carta, das imagens, do que aprendi ter sido este lugar, das esperanças que ali habitaram) desenrolou-se o fio longo das reflexões que me acompanharam depois desta visita, feita ao acaso enquanto caminhava na Paulista.

São Miguel Arcanjo, erguida por padres e índios, tinha por intenção a “velha e comum vontade humana de viver em paz e harmonia (...) nada de posses materiais, nem governo autoritário, nem esperança infundada (...)”.
A intenção desta vontade é o germe. É só o que me interessa aqui (a História é bem clara no desastre que foi a “catequização”).
Como a vontade de Prestes em relação ao seu país.
E como, também, a do Che que, coincidentemente, relembro neste mesmo dia, no cinema, em seguida à exposição. O filme Che, de Steven Soderbergh é comovente, sem excessos, a fotografia tangencia o sombrio, ambientação e caracterização de personagens meticulosas, quase um documentário. Benício del Toro está brilhante, sua figura ora agiganta-se, dureza, disciplina e integridade à flor da pele, ora encolhe-se, terna, as fragilidades humanas expostas. É um filme digno do grande homem que foi Che, digno de um revolucionário.

Tudo que vi até este momento de minha vida, que vivo em meu cotidiano arrefeceu a utopia. Amargurou. O humano não vale grande coisa, a poucos são dados desejo e força de bater-se com este fado. Ainda assim, às vezes, um instante luminoso, redentor. Um dia como hoje, pleno de sincronicidade, rematado, já em casa, pelo lúcido Saramago em seu Cadernos (blog obrigatório), quando diz do exemplar ativista-poeta Marcos Ana
as palavras que reproduzem o meu pensamento.
“Há pessoas que parecem não pertencer ao mundo e ao tempo em que vivem. Marcos Ana é uma dessas pessoas. Como tantos da sua geração, arrastados às prisões do fascismo espanhol, sofreu o indizível no corpo e no espírito, escapou in extremis a duas condenações à morte (...) Com o tempo, a dura realidade da prisão acaba por sobrepor-se à realidade exterior, diluindo-a numa imprecisa neblina que é preciso expulsar da mente em cada dia que passa para não se perder a segurança em si mesmo, por mais frágil que se torne. (...) Firme nas suas convicções políticas, mas sem permitir que o seu juízo crítico seja afectado, Marcos Ana transmite a quem quer que se aproxime dele um irreprimível sentimento de esperança, como se pensássemos: Se ele é assim, eu também o posso ser”.

E percebo pulsar ainda a matéria que me moldou.

Exposição fotográfica na Caixa Cultural Paulista
O Sonho e a Ruína
Luiz Carlos Felizardo
22/05 a 28/06/2009

Bonitos PBs e enquadramentos, muitas vezes apenas a luz natural sobre as pedras antigas e o sentimento da ação do tempo no abandono. Detalhes importantes de colunas, arcos, raízes, esculturas, da porosidade de superfícies.
O catálogo caprichado tem boas informações sobre aquela arte barroca hispano-guarani e arquitetura, com fotos pontuais.

domingo, 21 de junho de 2009

NY, jenipapo e pied-de-poule

New York Hotel Story
Nathalie Daoust

Coração do Brasil
Sue Cunninghan

30 anos de Fotografia
Acervo de Rosely Nakagawa.

As três exposições de fotografias na
Caixa Cultural Sé
Até hoje, 21/06

A canadense Nathalie Daoust foi uma das artistas a criar quartos temáticos no originalíssimo Hotel Carton Arms de NY e resolveu também fotografá-los, experiência que durou dois anos e resultou nesta exposição, New York Hotel Story.
São fotos manipuladas, sobreposições, 3D etc. Imagens oníricas, fantásticas, sensuais. Interessa-me muito.



Coração do Brasil, da inglesa Sue Cunninghan é uma outra praia. Quase um documentário, observação socio-filosófica ou denúncia. Ela e Patrick Cunnhinghan percorreram 2500 km do Rio Xingu (MT e PA) em 2007, 48 aldeias e 18 etnias foram investigadas. E surgiu, em irretocáveis registros, este povo espontâneo, sábio e doce, de corpos precisos tingidos de jenipapo.


Tudo é muito, muito bom no 30 anos de Fotografia, do acervo construído por Rosely Nakagawa (em muitos caminhos do universo da fotografia) .
A perfeição minimalista dos PBs de Carlos Moreira são gravuras japonesas, quase tristes se não fossem solares. O recorte colorido de vermelho-azul-iluminados de Lúcia Loeb (em algum boteco com toalhas de mesa psicodélicas). E Luiz Braga, que já aprendi, pernas de menina com saia pied-de-poule e um cesto de palha. Lindo PB.

À procura de novos olhares

À Procura de um Olhar
Pinacoteca do Estado, São Paulo-SP
Até 28/06/09

A proposta da exposição de fotografias parece ser um diálogo entre obras de autores consagrados como Pierre Verger, Jean Manzon e nomes mais jovens, no projeto Ano da França no Brasil.

Bom rever Verger, lindas imagens da São Paulo dos anos 50. Na mesma linha, e novidade para mim, Jean Manzon.
E Bruno Barbey, com um olhar colorido e noturno sobre o povo de Recife, Salvador, São Luis ou Belém. Luiz Braga impressiona bastante e desperta interesse em conhecê-lo mais, tem cores e primeiros planos belos e curiosos.


(Luiz Braga)

Um Acervo em Preto e Branco - Fotografias (1947/1980)
Pinacoteca do Estado, Térreo

Ao acaso, indo ao café, mais esta exposição. PBs incríveis. German Lorca é paixão à primeira vista. Tons exatos, definidos, contraluzes bárbaros (Aeroporto de Congonhas) e lindas sombras (Apartamentos na Mooca). Lírico
Thomaz Farkas também. E Boris Kossoy, embora mais difícil, surrealista.

Yule


Solstício. E da última fronteira da escuridão, a luz.
Gerada das gotas brancas do visco.
Criando-se na porção-noite do ano. Lenta. Viril.
A ser celebrada com Baco.
À saúde das árvores do pomar.

sábado, 20 de junho de 2009

Mapplethorpe


Neste mês tivemos Mapplethorpe aqui novamente, na Forte Vilaça. 27 obras.
Disse algo sobre ele em post anterior. Agora, só reafirmar o que já lapidou-se desde aquela primeira vez.
Gozo. Diante da beleza.
Do torso de Thomas à luz filtrada por persianas.
Ou das renascentistas pernas de Lisa Lyon.
Ou de dois botões de tulipa quase sépia.

domingo, 7 de junho de 2009

Surpresas

(um fim de domingo de abril)

“O Coletivo Potiguar. Imagens da Esquina do Brasil” apresenta uma produção bem contemporânea de fotógrafos do Rio Grande do Norte.
Tudo é novidade para mim.
Conceitual.
Gosto, particularmente, de Hugo Macedo com seu “Glamour das Kengas”, divertido registro do tradicional bloco carnavalesco “Banda das Kengas” (só de homens travestidos de mulheres bem vulgares). Colorido, explosivo, divertido.
De Jean Lopes, “Cenas de Rua”, ainda cores fortes, solares, praieiras.
E Ricardo Junqueira, “Memória”, fotos de “álbum” envelhecidas por tratamento, interessante proposta de reflexão sobre a relação tempo/deterioração/memória.

A Caixa Cultural Sé, surpreende-me, entre outras coisas, com mais duas exposições de fotos. Riqueza pictória e humana.
Os “Retratos Yanomami” de Cláudia Andujar, painéis enormes com fotos PB perfeitas. Rostos em sombras, expressivos, graves. Fundos negros (a penumbra do interior das ocas recriada).
E “The North American Indian”, do iníco do século XX, documentação cuidadosa do americano Edward Sherif Curtis, realizada ao longo de 30 anos, com 80 nações indígenas dos EUA e Alasca.
O fotógrafo também registrou em gravações, as diversas variações de linguagens e músicas e, adepto do movimento Pictorialista, realizou experimentos na finalização das imagens utilizando fotogravura, impressão em platina, viragem a ouro, cianotipia e gelatina + prata com tonalização para sépia. O resultado é belíssimo.

E o prédio da Caixa é o ponto de equilíbrio. Charmoso. Nos últimos andares um museu. Sozinha, visito-o. Já é noite. Salas imensas e móveis art-déco escuros, pesados, elegantes. Os ambientes daqueles anos antigos recriados, como se em algumas horas todas aquelas pessoas dos retratos lá chegassem para mais um dia de trabalho. Algum arrepio na espinha. Mas alegria.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Paulista

Cosplayer
(Av.Paulista-SP, Mercado Mundo Mix, abril/2009, por Patricia Augusta Corrêa)


Pano rápido. Outro cenário. Paulista. Mercado Mundo Mix.
Gothic lolitas, cosplayers, otakus e os olhos críticos de Clara. Outras praias. Talvez momices demais, futilidades? Ainda assim, engraçado. Gosto de tanta música, cor, juventude, androginia.

São Paulo adoça.

Iluminação

Lanternas para Buda
(Liberdade-SP,abril/2009, por Patricia Augusta Corrêa)

Na quase tarde ensolarada de 4 de abril, o monge em longas vestes escuras e olhar bondoso me diz que o ritual pode ser apenas um pedido ao Buda, “paz auxilia no único caminho que importa: iluminação”, ele continua, talvez tentando encerrar minha indecisão, enquanto, constrangida, derramo chá com a pequena concha de madeira sobre a imagem. Tá, paz, então.
(Na antiguidade budista, banhos de chá representavam purificação.)
É Hanamatsuri, aniversário do Buda (2.633 anos) e a Liberdade é mais efervescente neste sábado. Na praça, flores e imagens contrapõem-se ao artesanato insosso e aos consumistas fúteis de costume. A beleza real vem pelas brechas, nos olhos rasgados em rostos antigos ou infantis, nas vestimentas divertidamente destoantes, nos vegetais estranhíssimos, nas sonoridades incompreensíveis.
(Era para ser, também, um dia de fotografias, que se perderam no zênite solar. Salvaram-se só as lanternas.)
E luz eu trouxe, paradoxal, das trevas. De Roberto Carlos. Beleza, juventude, cultura, entusiasmo. Da inesperada, boa e curta conversa (umas poucas estações de trem), poderosa o bastante para dissipar a sombra de amargura que me vigiava.
Roberto é cego.)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Fotografias


A fotografia PB tem me interessado bastante. Aprendo novos significados de luz e sombra.
Dag Alveng, na exposição Nova Iorque/Noruega, 1979/2008, da Caixa Cultural, foi uma grata surpresa, especialmente a série Summer Light que traz a superexposição na maioria dos trabalhos, criando cinzas até uma explosão de brancos, numa bela exaltação ao (desejado) sol escandinavo, protagonista absoluto. E imagens líricas de uma casa de férias, de família, de pessoas despojadas de roupas, suaves, de luzes lânguidas (Raios de sol na Porta Lateral, 2008 é aquela minha imagem fetiche), de contrastes (o mesmo celeiro no verão e em seguida coberto por neve) ou cadeiras abandonadas num gramado já com ares de outono.


As outras duas séries são mais radicais. I love this Time of the Year é um achado ao acaso, perfeitamente esclarecido pelo próprio Dag: "Descobri no início da década de 1990 que se eu girasse a câmera em seu eixo quatro vezes, e expusesse o negativo quatro posições, o resultado era surpreendente! Nos últimos anos, trabalhei essa idéia seriamente. Essas imagens tratam de tempo e espaço, onde espaços são traduzidos em padrões e o tempo existe em camadas dentro da mesma imagem." Nova Iorque em calidoscópio.
Em This is Most Important ele usa exposição dupla e não gira a câmera, só aponta para outra direção, o resultado é mais figurativo e estranhamente sobrenatural.



DAG ALVENG
Nova Iorque / Noruega, 1979/2008
Caixa Cultural São Paulo
Até 10/05/09
www.caixa.gov.br/caixacultural

No MASP a Coleção Pirelli de Fotografia . Nomes consagrados que sempre ensinam e encantam. Especialmente: Zig Koch (Borboletas no Parque Nacional do Juruena, MT e outras bonitas naturezas clássicas).
Vânia Toledo (Rodolfo Scarpa com a primeira latinha de cerveja, aquela da Skol. Gal novinha, champanhe na mão, bronzeadíssima, top e saia estampada, colar de conchas, olho pintado e o indefectível cabelão. São clássicos adoráveis da sua série com personalidades). Fausto Chermont (Duna, MA, lindíssimo PB).



E o que é realmente novidade para mim: Ricardo Labastier (sóis escuros, estranhos), Ana Vitória Mussi (Quadra, interessante montagem de recortes), Barbara Wagner (Brasília Teimosa, PE, divertidíssimas, bregas, cores fortes).



Anderson Schneider (Eldorado, Cicatrizes, PBs críticas, fortes), Miguel Aun (Sem título, Diamantina, MG, o touro "sombra" na parede caiada, cores dramáticas), Andre Paoliello (neblinas lindas) e a comovente sala especial de André François dizendo tudo da possibilidade de uma medicina humanizada.


Coleção Pirelli MASP de Fotografia, 17ª edição.
MASP
Até 03/05/09

domingo, 19 de abril de 2009

Vivaldi e o sol

Hoje de manhã no SESC, o primeiro concerto comentado pelo maestro João Maurício Galindo, da nova série Um instante, maestro! O tema A Música Descritiva, disse sobre a elaboração dessa modalidade e, principalmente, sobre a arte da escuta. Enriquecedor.
Já gosto bastante da didática, da leveza e humor do maestro Galindo e os concertos Primavera e Verão das Quatro Estações de Vivaldi, executados no final, multiplicaram em mim os prazeres desse novo e ensolarado domingo-feriado de outono.


Um instante, maestro!
Maestro João Maurício Galindo e concerto com pequenas formações.
SESC Santo André, domingos às 11:00 horas, gratuito.
Próximas apresentações:
10/05/09 - A música pura
07/06/09 - A sonata e a sinfonia
19/07/09 - Harmonia e contraponto

www.sescsp.org.br

domingo, 12 de abril de 2009

Coisas que gosto

Feriado da Semana Santa, 2009. Dois atos. Ou, azuis e águas e sentimentos e alegrias.

Banho de sol, de vento, de água. Barulho de criança brincando, chinelos de dedo arrastando, água em movimento. O corpo na pedra mineira, toque lascivo, o choque (caetaneano) do branco com o azul. Azuis exagerados, aquele forte do fundo da piscina, o impecável do céu, o fingido da água. Com cheiro de cloro, despertando lembranças de outras tardes, outras piscinas, outras crianças.
Visita surpresa do carinho, da emoção, do bom papo. Querida Priscila.
Tarde de outono no SESC.


Casa de mãe, irmã, gato e cachorro. Algumas Heinekens. Conversas. Gene Kelly e Cid Charisse.

Uma vontade de ficar.

sábado, 11 de abril de 2009

Tudo é Passageiro



1° de abril de 2009

Fujo no fim da tarde para ver a exposição de fotos Tudo é Passageiro da Deborah Engel, no DConcept, em Sampa.
São painéis com séries de belas fotografias coloridas do colo de pessoas que vão em bancos de transportes urbanos. Não há rostos. Podem estar em ônibus, trens, barcas, metrôs. No Rio de Janeiro ou em São Paulo. Não importa. Há livros abertos, laptops, sacolas toscas de lojas 1,99, buquê de flores, lanche mordido, anotações ou contas sendo feitas etc. Por mãos judiadas ou cuidadas, anéis e pulseiras bacanas. Jovens ou velhas. Masculinas ou femininas. Passivas ou inquietas.
Contemplá-las é um jogo de suposições divertido e ao mesmo tempo dramático: indo para onde? chegando em que lugar? para fazer o quê? ansiando um encontro amoroso? carregando uma dor? muito feliz? doente? ferrado?
Transitório sim. Como tudo. Como eu, que também estou lá diariamente.

sábado, 28 de março de 2009

Calla Lily


Descobri Robert Mapplethorpe em 1997, na sua grande exposição do MAM (SP). Depois, as 50 fotografias da Galeria Fortes Vilaça (SP), em 2005.
Seu trabalho com luz e sombra me impressionou. As flores fascinaram, minimalistas, líricas, eróticas. E todo o encantamento dura até hoje.
Confesso meu repertório do conhecimento de arte fotográfica apenas em construção mas, é possível reconhecer que a sua obra, em estúdio, de base clássica, tem a profunda busca da beleza, do rigor "Eu procuro pela perfeição da forma. Eu faço isso em retratos, fotos de pênis, fotos de flores." Encontrou.
Em tudo há o toque autoral, transgressor, nos inventivos retratos de personalidades (que o lançaram no universo pop), na delicadeza still-life ou no pornográfico mas, sem dúvida, resultando sempre em beleza, mesmo ao preço de uma difícil digestão, passado o pasmo.




Escorpião do Queens, Mapplethorpe viveu pouco, 42 anos, mas, na efervescente cena artístico-intelectual da NY dos anos 70 e 80, possivelmente intensos e apaixonados.