domingo, 28 de junho de 2009

Willy Wonka

Um lugar na minha memória afetiva, das coisas divertidas, dos interesses primeiros. Os sons. Não aqueles que entraram veia afora, o erudito oferecido de presente em casa, as Dolores e Elizetes cantadas enquanto se cozinhava, a Banda, a Construção ou a Canção do Sal explodindo no rádio ou toda a escola de rock da Nora. Mas aquele das fossas juvenis, a Sonata verde chorando Never can say goodbye (ainda há o vinil!), Got to be there, Music and me ou Ben. E, mais tarde, na Tutti-Frutti de São Bernardo, Blame it on the boogie, Don’t stop 'til you get enough, Rock with you, muita luz, espelhos, curiosidade, hi-fis e peppermints. Mas, decididamente, os primeiros sinais no sentido de descobrir o divino soul.

Diante deste infame banquete-de-ossos estas lembranças vêm. Um tanto melancólicas, como são as lembranças. Como é olhar a morte dos contemporâneos, a nossa. O tempo.

E no ar um estranho desconforto, uma culpa, uma pena. Por este Gene Kelly, por este deus pop-kitsch, pelo artífice do clipe "movie", por este Willy Wonka trágico.

sábado, 27 de junho de 2009

Sonho e Ruína

“As (fotografias) das missões de São Miguel trouxeram-me boas recordações, e isso por diversos motivos; foi por ali que, na tarde de 27 de dezembro de 1942, fizemos a concentração de todas as forças que estavam espalhadas pelos municípios vizinhos, para iniciar a marcha para o norte”.
(frag de carta de Luiz Carlos Prestes para seu primo Alfredo Felizardo na prisão, 1942).

Esta é a epígrafe no catálogo da exposição do fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, das ruínas da catedral no território das Missões Jesuítas ou Sete Povos das Missões, em São Miguel das Missões, pampas do RS. Decidi transcrevê-lo porque também daí (da carta, das imagens, do que aprendi ter sido este lugar, das esperanças que ali habitaram) desenrolou-se o fio longo das reflexões que me acompanharam depois desta visita, feita ao acaso enquanto caminhava na Paulista.

São Miguel Arcanjo, erguida por padres e índios, tinha por intenção a “velha e comum vontade humana de viver em paz e harmonia (...) nada de posses materiais, nem governo autoritário, nem esperança infundada (...)”.
A intenção desta vontade é o germe. É só o que me interessa aqui (a História é bem clara no desastre que foi a “catequização”).
Como a vontade de Prestes em relação ao seu país.
E como, também, a do Che que, coincidentemente, relembro neste mesmo dia, no cinema, em seguida à exposição. O filme Che, de Steven Soderbergh é comovente, sem excessos, a fotografia tangencia o sombrio, ambientação e caracterização de personagens meticulosas, quase um documentário. Benício del Toro está brilhante, sua figura ora agiganta-se, dureza, disciplina e integridade à flor da pele, ora encolhe-se, terna, as fragilidades humanas expostas. É um filme digno do grande homem que foi Che, digno de um revolucionário.

Tudo que vi até este momento de minha vida, que vivo em meu cotidiano arrefeceu a utopia. Amargurou. O humano não vale grande coisa, a poucos são dados desejo e força de bater-se com este fado. Ainda assim, às vezes, um instante luminoso, redentor. Um dia como hoje, pleno de sincronicidade, rematado, já em casa, pelo lúcido Saramago em seu Cadernos (blog obrigatório), quando diz do exemplar ativista-poeta Marcos Ana
as palavras que reproduzem o meu pensamento.
“Há pessoas que parecem não pertencer ao mundo e ao tempo em que vivem. Marcos Ana é uma dessas pessoas. Como tantos da sua geração, arrastados às prisões do fascismo espanhol, sofreu o indizível no corpo e no espírito, escapou in extremis a duas condenações à morte (...) Com o tempo, a dura realidade da prisão acaba por sobrepor-se à realidade exterior, diluindo-a numa imprecisa neblina que é preciso expulsar da mente em cada dia que passa para não se perder a segurança em si mesmo, por mais frágil que se torne. (...) Firme nas suas convicções políticas, mas sem permitir que o seu juízo crítico seja afectado, Marcos Ana transmite a quem quer que se aproxime dele um irreprimível sentimento de esperança, como se pensássemos: Se ele é assim, eu também o posso ser”.

E percebo pulsar ainda a matéria que me moldou.

Exposição fotográfica na Caixa Cultural Paulista
O Sonho e a Ruína
Luiz Carlos Felizardo
22/05 a 28/06/2009

Bonitos PBs e enquadramentos, muitas vezes apenas a luz natural sobre as pedras antigas e o sentimento da ação do tempo no abandono. Detalhes importantes de colunas, arcos, raízes, esculturas, da porosidade de superfícies.
O catálogo caprichado tem boas informações sobre aquela arte barroca hispano-guarani e arquitetura, com fotos pontuais.

domingo, 21 de junho de 2009

NY, jenipapo e pied-de-poule

New York Hotel Story
Nathalie Daoust

Coração do Brasil
Sue Cunninghan

30 anos de Fotografia
Acervo de Rosely Nakagawa.

As três exposições de fotografias na
Caixa Cultural Sé
Até hoje, 21/06

A canadense Nathalie Daoust foi uma das artistas a criar quartos temáticos no originalíssimo Hotel Carton Arms de NY e resolveu também fotografá-los, experiência que durou dois anos e resultou nesta exposição, New York Hotel Story.
São fotos manipuladas, sobreposições, 3D etc. Imagens oníricas, fantásticas, sensuais. Interessa-me muito.



Coração do Brasil, da inglesa Sue Cunninghan é uma outra praia. Quase um documentário, observação socio-filosófica ou denúncia. Ela e Patrick Cunnhinghan percorreram 2500 km do Rio Xingu (MT e PA) em 2007, 48 aldeias e 18 etnias foram investigadas. E surgiu, em irretocáveis registros, este povo espontâneo, sábio e doce, de corpos precisos tingidos de jenipapo.


Tudo é muito, muito bom no 30 anos de Fotografia, do acervo construído por Rosely Nakagawa (em muitos caminhos do universo da fotografia) .
A perfeição minimalista dos PBs de Carlos Moreira são gravuras japonesas, quase tristes se não fossem solares. O recorte colorido de vermelho-azul-iluminados de Lúcia Loeb (em algum boteco com toalhas de mesa psicodélicas). E Luiz Braga, que já aprendi, pernas de menina com saia pied-de-poule e um cesto de palha. Lindo PB.

À procura de novos olhares

À Procura de um Olhar
Pinacoteca do Estado, São Paulo-SP
Até 28/06/09

A proposta da exposição de fotografias parece ser um diálogo entre obras de autores consagrados como Pierre Verger, Jean Manzon e nomes mais jovens, no projeto Ano da França no Brasil.

Bom rever Verger, lindas imagens da São Paulo dos anos 50. Na mesma linha, e novidade para mim, Jean Manzon.
E Bruno Barbey, com um olhar colorido e noturno sobre o povo de Recife, Salvador, São Luis ou Belém. Luiz Braga impressiona bastante e desperta interesse em conhecê-lo mais, tem cores e primeiros planos belos e curiosos.


(Luiz Braga)

Um Acervo em Preto e Branco - Fotografias (1947/1980)
Pinacoteca do Estado, Térreo

Ao acaso, indo ao café, mais esta exposição. PBs incríveis. German Lorca é paixão à primeira vista. Tons exatos, definidos, contraluzes bárbaros (Aeroporto de Congonhas) e lindas sombras (Apartamentos na Mooca). Lírico
Thomaz Farkas também. E Boris Kossoy, embora mais difícil, surrealista.

Yule


Solstício. E da última fronteira da escuridão, a luz.
Gerada das gotas brancas do visco.
Criando-se na porção-noite do ano. Lenta. Viril.
A ser celebrada com Baco.
À saúde das árvores do pomar.

sábado, 20 de junho de 2009

Mapplethorpe


Neste mês tivemos Mapplethorpe aqui novamente, na Forte Vilaça. 27 obras.
Disse algo sobre ele em post anterior. Agora, só reafirmar o que já lapidou-se desde aquela primeira vez.
Gozo. Diante da beleza.
Do torso de Thomas à luz filtrada por persianas.
Ou das renascentistas pernas de Lisa Lyon.
Ou de dois botões de tulipa quase sépia.

domingo, 7 de junho de 2009

Surpresas

(um fim de domingo de abril)

“O Coletivo Potiguar. Imagens da Esquina do Brasil” apresenta uma produção bem contemporânea de fotógrafos do Rio Grande do Norte.
Tudo é novidade para mim.
Conceitual.
Gosto, particularmente, de Hugo Macedo com seu “Glamour das Kengas”, divertido registro do tradicional bloco carnavalesco “Banda das Kengas” (só de homens travestidos de mulheres bem vulgares). Colorido, explosivo, divertido.
De Jean Lopes, “Cenas de Rua”, ainda cores fortes, solares, praieiras.
E Ricardo Junqueira, “Memória”, fotos de “álbum” envelhecidas por tratamento, interessante proposta de reflexão sobre a relação tempo/deterioração/memória.

A Caixa Cultural Sé, surpreende-me, entre outras coisas, com mais duas exposições de fotos. Riqueza pictória e humana.
Os “Retratos Yanomami” de Cláudia Andujar, painéis enormes com fotos PB perfeitas. Rostos em sombras, expressivos, graves. Fundos negros (a penumbra do interior das ocas recriada).
E “The North American Indian”, do iníco do século XX, documentação cuidadosa do americano Edward Sherif Curtis, realizada ao longo de 30 anos, com 80 nações indígenas dos EUA e Alasca.
O fotógrafo também registrou em gravações, as diversas variações de linguagens e músicas e, adepto do movimento Pictorialista, realizou experimentos na finalização das imagens utilizando fotogravura, impressão em platina, viragem a ouro, cianotipia e gelatina + prata com tonalização para sépia. O resultado é belíssimo.

E o prédio da Caixa é o ponto de equilíbrio. Charmoso. Nos últimos andares um museu. Sozinha, visito-o. Já é noite. Salas imensas e móveis art-déco escuros, pesados, elegantes. Os ambientes daqueles anos antigos recriados, como se em algumas horas todas aquelas pessoas dos retratos lá chegassem para mais um dia de trabalho. Algum arrepio na espinha. Mas alegria.