quinta-feira, 30 de julho de 2009

Paisagens e preciosidades


Paisagens Silenciosas, todas as coisas dão frutos, cor
Lucila Wroblewski
Caixa Cultural Sé
Até 09/08/2009


Florescência, Luminância, Vestígio é como Lucila organiza este seu interessantíssimo trabalho, que propõe, conforme declara no catálogo (muito bem cuidado e com bonito texto-abertura de Alice Ruiz), captar o instante existente entre as ações, as cenas que acontecem no silêncio dessa dimensão. Talvez o subjetivo.

São imagens de beleza singular. Movimentos iluminados por luzes naturais, quase noturnas, e pela que produz a mão da artista, light painting. O resultado é às vezes lírico (gosto das Florescências 02, 20, 24 e dos Vestígios 01, 08, 13) ou surreal, mas sempre inquietante, encantador. Fotógrafa-poeta de primeira, para se saber mais, ver, estudar.

Foto Cine Bandeirantes – 70 anos
Centro Cultural São Paulo
Até 30/08/2009

Acervo histórico do antigo fotoclube. Tem coisas interessantíssimas de Geraldo de Barros (Marginal, movimento), José Yalenth (Energia, uma bela luz solar), Tadeu J. Cruz e Frederico Mielenhausen (curioso surrealismo), Valêncio de Barros (Ao cair da tarde, vintage, a luz solar sobre ovelhas), Raul Eitelberg (retratos setentistas de cores interessantes em locais inusitados), PBs dos mágicos German Lorca, Thomas Farkas e outros diversos artistas.
Precioso.

Jardim suspenso

No horizonte maior as montanhas, de pedra, acima e paralelas aquelas de nuvens salmão. E consigo ver um litoral. Ao meu lado e dócil, o bem-te-vi crê em minha imitação ou apenas ouve a música celta, que se ensaia no teatro de arena. Na arquitetura a tipuana e no espelho da janela daquele edifício, o avião.
junho, 2009, no jardim do centro cultural são paulo.

domingo, 19 de julho de 2009

Filmes para lembrar

Gostar de filmes foi mais um dos presentes da minha infância. Éramos levados para vê-los no cinema em São Paulo (Santo André era então ainda mais provinciana). Para mim eram dias de grandes acontecimentos, tanto que ficaram entre minhas mais felizes lembranças, posso ver-me e ver a todos, sentir cheiros e sabores, reprisar imagens, Fantasia, A Guerra dos Dálmatas, Moggli...
Algo foi plantado. E lapidei. E hoje, por diversas circunstâncias, arrisco dizer que me salvam às vezes.
E vejo-os muito. Alguns revejo sempre, já eternizados; outros verei, porque ainda busco, garimpo (a duras penas); outros apenas divertem e se perdem no esquecimento e outros ficam, dias e dias ainda depois de vistos e talvez, deles, alguns se juntem aos eternos.
  • A Valsa com Bashir de Ari Folman é uma animação, um documentário, uma biografia, um exercício catártico e um grande filme. 1982, Folman serve ao exército israelense, guerra Líbano x Israel, no momento em que 3000 civis dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila são massacrados por uma milícia cristã, em represália ao assassinato de Bashir, presidente-líder libanês. O aliado Israel teria sido, no mínimo, omisso neste episódio. E na reconstrução da memória perdida do cineasta, tudo é muito criativo, terrível e belo. As angustiantes tonalidades ocres, os traços quase distorcidos, a trilha rock’n roll, a referência ao Apocalypse Now e as metáforas certeiras (como o viajante momento da valsa do soldado em combate).




  • Três Macacos, do turco Nuri Bilge Ceylan impressiona pela fotografia dramática. É ela que olha, fala, ouve. Tons cinzas chuvosos, bonitos enquadramentos e primeiros planos conduzem os silêncios, a solidão, a tristeza da incomunicabilidade, a raiva contida naquela família. Três pessoas sobrevivendo como os três macaquinhos da fábula. Talvez encontrando-se na mentira. Como tantos de nós.



  • Peixe Grande. A inconfundível mão de encantador de Tim Burton para contar uma saga, contar do amor que não se consegue dizer e sobre escolhas possíveis entre realidade e fantasia, esse limite sutil que às vezes nos salva. Comovente. Fechado a ouro pela canção de Eddie Vedder (Man of the Hour).


  • O Silêncio de Lorna, dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. O doloroso retorno de Lorna (imigrante albanesa presa a um perverso esquema de greencard) ao mundo das sensações, à humanização é descrito com realismo e secura incômodos. Tudo vai num crescendo, costurado em sutilezas, revelando-se em surpreendentes gestos de desespero, gritos de socorro e ternura, sobre um fundo quase silencioso que só se quebra, comoventemente, na entrada da sonata de Beethoven. E como é bela e trágica esta Arta Dobroshi.


  • Com o mesmo tema espinhoso do imigrante ilegal, desta vez nos EUA pós 11 de setembro (e não na europa de Lorna), mas com uma outra abordagem, O Visitante, de Tom McCarthy. Mais doce talvez, embora duro. E extremamente valorizado por Richard Jenkins que, através da força de expressão que dá ao seu Walter, praticamente conduz toda a história.