terça-feira, 25 de agosto de 2009

A beleza, talvez no jardim de Epicuro


... havia apenas os galhos em algazarra pelo céu. Uma pena azul como aço caiu de um deles e foi para entre as urzes. Gostava de penas de pássaros agrestes. Costumava colecioná-las, quando rapazinho. Apanhou-a e meteu-a no chapéu. O ar soprou alguma coisa em seu espírito e reanimou-o. Como os gralhos continuavam a dar voltas e a girar por cima de sua cabeça, e as penas caíam uma atrás da outra, cintilando através do ar purpúreo, seguiu-os, com a longa capa a flutuar pelos ombros, brejo afora, até a colina. Havia anos que não caminhava tanto. Tinha apanhado das ervas seis penas, e fizera-as deslizar entre as pontas dos dedos, e passara-as pelos lábios para sentir-lhes a maciez e o lustro, quando viu, brilhando na encosta da colina, um poço de prata, misterioso como o lago em que Sir Bedivere atirou a espada de Artur. Uma pena estremeceu no ar, e caiu dentro dele. Então arrebatou-a um estranho êxtase. Um selvagem impulso de acompanhar os pássaros até o fim do mundo e atirar-se na esponjosa turfa e beber esquecimento, com o riso rouco dos gralhos ressoando na altura. Apressou o passo; correu; tropeçou; as ásperas raízes das urzes atiravam-na para o chão. Tinha quebrado o tornozelo. Não se podia levantar. Mas ali ficou feliz, deitada. O cheiro do mirto dos pântanos e da filipêndula estava em suas narinas. A risada dos gralhos estava em seus ouvidos. «Encontrei meu companheiro», sussurou, entregando-se, extasiada, ao frio abraço da erva, envolta em sua capa, na cova junto ao poço. «Aqui ficarei.» (Uma pena caiu-lhe na testa.) «Encontrei um loureiro mais verde que os louros. Minha testa terá frescura para sempre. Estas são penas de pássaros bravios – de corujas, de andorinhas noturnas. Sonharei sonhos fantásticos. Minhas mãos não usarão anel de casamento», continuou, retirando o que tinha no dedo. «As raízes se enroscarão nelas. Ah !», suspirou, afundando a cabeça com delícia na sua fofa almofada, «Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdi-a; o amor, não o conheci; a vida – e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres», continuou, «não entendi nenhum. É melhor que aqui fique em paz, só com o céu por cima de mim – como o cigano me disse há tempos.»

Orlando, Virginia Woolf

domingo, 2 de agosto de 2009

Sanyasa?


Que melhor maneira haveria para celebrar Imbolc (o 1º de agosto do despertar pela luz do sol, da beleza, do desapego) do que um domingo ensolarado, que rompeu as sombras destes dias, entre as árvores, bichos, crianças e casais do Parque Central e as belíssimas notas da Osesp? Notas repetidas, porque as ouço no inconsciente, plantadas que foram por aqueles vinis da infância, Bolero, O Morcego, as danças do Príncipe Igor e, hoje, a certeza daquilo que é definitivo e certo em mim, talvez o que de fato importe e possivelmente salve. Chorado em lágrimas antes de gozo que de saudade, que se há, é do melhor que poderia ter sido, sentado aqui, ao lado, neste gramado.