domingo, 8 de novembro de 2009

Partidas


Okuribito, Japão, 2008, Tyojiro Akita

Em pequenas cidades do Japão, de tradição mais presente, há um cerimonial de preparação de corpos para funerais. Okuri: levar, bito: pessoa, que aqui, gosto mais da versão para Partidas. A partida maior e inexorável a que estamos todos fadados e a partir da qual, a recusá-la, se constroem as vidas e a coleção de trajetos que concebemos, para algum sentido dar a esse passatempo nonsense.
Daigo faz o retorno da metrópole à terra natal, morto o sonho de grande virtuose, para no desencanto e na apatia reencontrar sua dor, sua história e o perdão libertador. E redescobrir a arte, o talento e novos sentidos, justamente em cuidar da grande partida.
A beleza maior de Okuribito está nas sutilezas, nos sinais (o polvo semimorto, a migração dos salmões, o cello infantil versus “o cello pesado demais”, os seixos trocados à beira do rio, as personagens - vivas ou não - que se cruzam), na reflexão existencial inevitável, e
, no interessante timing japonês e delicada fotografia (que dispensaria absolutamente os momentos videoclipe).

sábado, 7 de novembro de 2009

O Fado

Fados de Carlos Saura, (2007) é um documentário especial. Tem o precioso toque do mestre. Em cenários reais belamente iluminados, o hoje dança com a lembrança revelada ao fundo, nos telões. Gestos e vozes entrelaçam origens, a tradição (o castiço), os desdobramentos.
Certas passagens são comoventes para mim. A Rua do Capelão surgindo surpreendente na voz de uma lindíssima e jovem Cuca Roseta, junto aos fragmentos do filme (um clássico dos anos 30) sobre a vida da mítica Severa. Caetano Veloso em uma leitura de Estranha Forma de Vida que, em falsete e acento luso, entendo como afetuosa antropofagia. E Amália, a minha voz fetiche, em um momento descontraído de ensaio, o rosto lindo da minha infância, da raiz que tanto prezo e que tudo me explica.


"Ó gente de minha terra, agora que eu percebi,
esta tristeza que trago...
foi de vós que recebi. "


Querida e inesquecível tia Etelvina, artífice do meu fado.



domingo, 1 de novembro de 2009

Beltane

De toda brasa,
[daquela que arde em fogueiras a guiar e honrar o Verão ou daquela, entre árvores, refletida no rubor da dança, do vinho, do riso, do gozo]
a centelha da esperança.
Do primeiro orvalho o viço
e das flores os néctares e essências mais fortes
para renascer,
tudo o que já morre em mim.