domingo, 26 de dezembro de 2010

Mar

Houve um pouco de medo na trilha pela encosta, chovia e tudo era desconhecido mas a menina que ia pelo caminho ajudou com a mochila e tudo resplandecia, verdes intensos e sons fabulosos. Tinha uma alegria boba comigo, apesar do all star encharcado, das coisas se desfazendo na mala, daquela sombrinha ridícula e inútil que eu insistia. Era a desforra da sala opressiva, da prudência, quase um atalho pro "Deus me Livre" na Trindade dos 90, uma passagem no tempo.
Fui me desenterrando.

Pela Prainha Branca de águas calmas, igrejinha e farinha de conchas na areia, aldeia de pescadores cravada na Serra do Guaruru, ou Rabo do Dragão (gosto mais) da Ilha de Santo Amaro, canal de Bertioga (SP). Sopé de mata Atlântica bruta ainda recheada de pássaros, felinos, vegetação e prováveis desmoronamentos. E, enquanto não vêm os turistas de janeiro, rude, empoeirada, quase fantasma, um PF com cerveja gelada no máximo, mas no luxo sem preço de um boteco pé na areia, reggae e vista pro mar. Sempre úmida, porém fresca, calada, porém cheia dos risos dos cães de praia e daqueles por trás dos olhos paralisados.

E Maresias, São Sebastião (SP), mais ao norte. 5 km de areia grossa, solta, caminhar duro. Uns (ainda) deliciosos metros com restinga e bichos, suficientemente sozinhos para se ficar diante do mar o quanto quiser. E uns outros tantos, constrangedores, "quintal" de todos aqueles condomínios, mansões e pousadas endinheiradas, das espreguiçadeiras, guarda-sóis e garçons padronizados e meninas em série lindas, tatoos, biquínis, óculos, cabelos e gestos iguais.
Mas tinha um mar fascinante! De ondas verdes ferozes, enormes, dos surfistas, das respostas. E à noite vaga-lumes, faltava luz uns instantes e estavam todos ali, dezenas ao meu redor, fantásticos! Lembrando da minha cegueira, do meu ouvido banal (o mar noturno, que pensei motores, as cigarras que pensei serras elétricas...), do meu tempo equivocado.

Chuva, bichos, aquele mar violento e à tona a minha distância das coisas que explicam, o outro movimento do tempo, o novo chamado do corpo, as inutilidades, as riquezas nuas, as férias em Cibratel, em Figueira da Foz, na casa da Vahia de Abreu dos cheiros de amendoeira-chapéu-de-sol, macela e pão de cará, recorrentes e vitais. Isso apenas, nenhuma sorte, culpa, tratados ou bobagens "ao glitter". A única realidade é material, e a roda, a que gira eterna. Se há religião é isso, se há poesia é seca.
O resto é com o mar.

anos 60 e uma praia com sol.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Litha

do esplendor à escuridão pra só depois, de novo a luz.
o oposto sempre, em semente.
a compreender.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

1770, 16 de dezembro

Ludwig Van Beethoven nasceu em 16 de dezembro, 1770.
Bonn, Alemanha.

Na noite de 11 de dezembro entrei no coração da Sinfônica de Santo André, justo no Adagio da Sinfonia nº 9 de Beethoven ( o Adagio! não por acaso...)
Instrumentos, carnes, sonoridades, amor, fundindo a alegria absoluta. Una, enfim (e taquicárdica), naquilo que sempre compreendi, com ternura e dor.
O divino, talvez...
No ensaio, dizia o maestro Carlos Moreno que a Nona não se ouve e não se faz com pés no chão. Cria-se outra atenção (ou não). Aquela que me permitiu (com toda a mediocridade de minhas notas altas), no coro do Allegro, viver o instante perfeito. Que de tão grandioso já não é mais aquele instante é agora essa coisa em mim, alegrando meu silêncio.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sobrevida

Súbito, o ônibus carregado de crianças barulhentas e felizes. E o bom e velho rock da Kiss, que gosta o novo vizinho pelas manhãs.
Alento. Pra voltar do sol à sala de trabalho, intoxicada pelo tédio das vozes de ladainha, desfiando suas verdades estéreis e suas pequenas crueldades.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Seguindo...

e quando se segue de fato, são novas as estradas. e o que as ilumina e escurece. e o ar. e a eletricidade. então, que não me cobrem coerência. novas estradas querem novos pensamentos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Agora

Pela janela do ônibus, um vento quase morno. Vai ter verão, na noite de sexta a gente sente, as caras já estão mais felizes. Aí eu abro um demi-sec (que chegou à temperatura no tempo certo do meu banho) e choro um pouco. Porque ligo o rádio e vem o Opus 9, número 2 de Chopin e porque ainda agora, ali no Alpha, aquelas pessoas todas me desintoxicaram de toda inadequação desse dia. Agora o negócio é comigo. Aí a barra pesa.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

15.

Água morna nas mãos, conforta. Tem sol na caixa d'água. Que denuncia gelo aqui dentro. E o silêncio. De meses. Que resolvi chamar ciclo, rito de passagem, qualquer coisa. Que dê em qualquer coisa. Porque algo se esclarece. E tanto desmorona, pra nenhum conserto. Antes, eu tinha uns fumos pra não doer. Já não servem. Só isolaram a angústia da melancolia. Um avanço. E os olhos mais abertos. Agora o óbvio fere. E a salvação não acontece depois das 17. Ou na sexta-feira. Não há muito além do traço de giz. O que há é o que está aqui.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Homens, santos e desertores


Quando li o texto, no Doze peças de Mário Bortolotto, fui muitas vezes aquele homem, algumas o garoto. E sempre com um nó e um prazer redentor. Quis muito ver.
Vi sábado. Mário Bortolotto e Gabriel Pinheiro estavam no mesmo cenário que "criei", só que tinha umas luzes, uns sons e as entranhas daquelas almas se revelando entre a tensão e a ternura com arte, da boa, de arrepiar. Aí a barra pesou mais, comoveu como o diabo.
A obra do Mário e aqui nessa mostra, do grupo Cemitério de automóveis, é das poucas coisas que me entusiasmam ultimamente, dão identidade, conforto. Daí, essa comichão para escrever, mas já há os que o fazem com toda propriedade e competência e à medida do meu sentimento (li depoimentos memoráveis no Atire no dramaturgo).
Deixo reverências.
Bonus track: ver o Marcelo Montenegro na técnica. Mesmo de longe. Gosto bom de saudade de tempos no Alpharrabio ou cervejas, algumas ali mesmo depois do Kerouac numa outra Mostra. Tanto tempo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ostara

Que me contamine algum equilíbrio, as longas luzes desses novos dias. E algo que germine, minimamente que seja. Talvez, novamente, a fé no germinar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Zhivago

É estranho rever certos filmes que assisti muito jovem. Doutor Jivago é de 1965, claro, vi bem depois, mais de uma década talvez, não tenho certeza, nem é tão importante, o que ficou na lembrança é que é curioso: vagos flashs de um lacrimoso romance na neve, embalado pelo Tema de Lara (numa daquelas leituras bem bregas) e os bigodões do galã egípcio Omar Sharif. Só isso.
Hoje, a estrada ensinou coisas. Consigo até desatrelar a obra musical original de Maurice Jarre, do amontoado de versões cafonas que gerou, ouço a importância da balalaica, dos violinos, de certos crescendos em todo aquele contexto, acho bonito.
Mas o que me encanta é a fotografia. É perfeita. Há imagens poderosas. Dos grandiosos cenários gelados,

de uma sociedade brutalmente se transformando pela revolução (Revolução Russa, 1917), diante dos olhos pasmos de uma aristocracia em decadência, uma plebe cheia de sofrimento e rancor, febris ideais, lutas por poder e um mundo em guerra (Primeira Guerra Mundial),


e luzes maravilhosas cintilando a beleza fresca e trágica de Julie Christie



ou exagerando a quase inexpressividade de Sharif que dá todas as cores ao deslocamento, desencanto e candura do poeta Dr. Yuri Zhivago (que, especula-se, é o próprio Boris Pasternak, autor do romance inspirador do filme),


numa história de amor que permeia a saga.

Coadjuvam fantasticamente, Alec Guinness como o general meio-irmão de Yuri e narrador da história, e Klaus Kinski, um preso político.

Para mim, essa revolução e o desfecho a que chegou nos dias de agora faz tudo mais trágico, mais frustrante, mas isso são coisas cá com minhas utopias.

Dr. Jivago não é mais apenas aquele filme romântico da minha adolescência, é um grande filme.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Oliveira Lima

Eles não sabem que pisam a obra de Luiz Sacilotto, que naquele carrinho ao lado da Galeria estão as melhores pipocas de canjica do mundo e que na esquina da Praça do Carmo ainda há um realejo.
Tudo é muito, tudo é rápido, cego, oco.
E quando recuso a bijuteria que o inexplicável hippie me oferece num susto, ele sorri e diz que é bonita e de bom agouro a estrela de seis pontas que trago na corrente.
Escancara o risco maior: por trás da  náusea, perco a delicadeza.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Uma outra quadrilha

Felícia amava Cassiano, que um dia fugiu com Mariana, que foi ter filho com Rafael, para Cassiano descobrir uma outra Mariana, Felícia então, apagou as luzes da varanda.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

É preciso ainda que doa e que se surpreenda à espera da bondade que jamais virá. Para sangrar um pouco, antes de se compreender que já se tem a força (naquilo que enrijeceu).

segunda-feira, 12 de julho de 2010




(6:30, da minha janela)

Já há, no horizonte vermelho das torres elétricas, um dia à espera da angústia.
Chega a alegrar-se às primeiras luzes sobre a paisagem rápida na janela do trem, e logo sufoca num amontoado de olhos tristes, halitoses, ranços. E sempre, mais à tarde, o mesmo desconforto, roupa velha que já não cabe, sobra onde protegia, falta onde ainda não se sabe o que.
Agonia sem mistério: o olho apenas, e finalmente, acostumado à escuridão, a cerca de farpas exposta no escuro feito do medo, medo dos olhos que vêem, destoam, arriscam, põem a perder o amparo.
Reais agora, sangram as farpas. Não há mais acorde. Nem redenção para o próximo fim de semana.
E ainda não há coragem.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Copas do Mundo de Futebol

Copa do mundo sempre me leva de volta a 1970, à sala com janelas para o quintal da casa dos amigos-irmãos Balochinni, a minha família que era inteira e a TV PB transmitindo direto do México (a novidade!) na voz do Geraldo José de Almeida. Até hoje, tenho de cor rosto e nome de cada jogador da seleção tricampeã. Memória de afeto apenas, não havia ainda entendimento da orquestração que fazia daquilo a ditadura, era só alegria pela grande festa com a família e o início da proximidade com esse esporte que, quase por atavismo, atrai tantos de nós brasileiros.
Tive sorte, foi um excelente início e então aproximei-me até onde quis, o suficiente para apreciar quando há beleza e desprezar o mercantilismo no qual se transformou. Por isso é no mínimo aborrecida toda essa comoção, esses brios nacionalistas, essa celebração do que não vai bem e imensa minha satisfação em ser a dita (não para meus pares) "do contra", principalmente no contexto de vida de hoje transbordante em desrespeito e superficialidade.
A integridade que resulta da compreensão que no traz o tempo tem seu traço amargo, mas abre olhos livres. Com esses acompanho a Copa de 2010.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

e desprendeu-se a vontade de Saramago...

Descobri Saramago tardiamente, em 2004 minha mãe insistiu que eu lesse Memorial do Convento, que a havia impressionado, emprestou, li e cai apaixonada por toda aquela escrita impregnada de poesia, fantástica, comovente e absolutamente interessante. Jamais esquecerei Blimunda Sete Luas e seus olhos de enxergar a "vontade" que habita o interior de todos nós.
Então confirmaram a paixão: Ensaio sobre a Cegueira, Objeto Quase, Levantado do Chão e O Caderno de Saramago (o blog) que se consolidará, é certo, no tudo quanto ainda me falta ler (alguns já à espera, aqui nas prateleiras).
Saramago é um daqueles casos raros que me interessam completamente: o artista, o pensador, o homem, a vida, os valores. Um mestre absolutamente admirável, que viveu brilhante, íntegro e lúcido até o dia de hoje, dia que agora é de dor.
Que falta fará a esse (pobre) mundo.

"... Então é nada esta infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada aquele oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é, minha filha, e quanto mais se for prolongando a tua vida melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, Oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara."
(in Memorial do Convento)

domingo, 13 de junho de 2010

A fita branca

(Michael Haneke)

“Tinha vontade de tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Queria mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer idéia se torna perversa se tem, como ponto de partida, o autoritarismo. E isso ajuda àqueles, que não têm possibilidade alguma de se defender, seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida.”

Diz Haneke, sobre o seu A fita branca (Das weisse band, 2009) e que nos oferece nas impressões de um professor de crianças de uma comunidade alemã campesina e severamente protestante, no final dos anos 10, pouco antes da primeira Grande Guerra. Os terríveis fatos chegam até nós através de seus olhos, de seus pressupostos, de seu julgamento e de sua memória, já que a narração se faz muitos anos depois. É uma parábola. Revela-se o que se deve manter latente, a inveja, a crueldade, a dissimulação, o desejo de vingança e o autoritarismo, a intolerância, a sujeição. O medo. Desnudo o ser humano, o que somos todos.
É para incomodar, para doer. Com requinte e beleza.
A escolha da fotografia PB foi brilhante, reproduz dramaticidade (junto com o maravilhoso jogo de planos que abrem ou fecham numa conversa poderosa e esclarecedora) e caráter de reminiscência. E é perfeita! (há lindas nuanças de cinzas, sombras e contraluzes). Gosto bastante, também, do elenco e todas aquelas crianças tristes.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ilha do medo.

Ilha do medo (Shutter island, 2010) do Martin Scorcese é um verdadeiro thriller até o último minuto e deliciosa reverência aos filmes B e noir , estão lá as neblinas, trench coats, ambiguidades, a base no livro de suspense (Paciente 67 de Dennis Lehane) e tal. E Scorcese é gênio na linha de cinema que escolheu pra deixar na história . E eu acho o DiCaprio o melhor da "moçada" que está por aí. E esse foi o filme que caiu redondo com um Malbec e um tacho de pipocas no último sábado de outono.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Maureen

Maureen Bisilliat, essa inglesa paulistana, constrói uma longa (50 anos) e interessante carreira no fotojornalismo e na fotografia especificamente. Produziu ensaios importantes a partir de clássicos da nossa literatura (O turista aprendiz de Mário de Andrade, Os sertões de Euclides da Cunha, Grande sertão veredas de Guimarães Rosa, obras de Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto e outros) ou no Xingu. Ricos retratos de nossa gente, de nossa terra, do diálogo com esses nossos grandes nomes (em alguns casos, em pessoa – Rosa, Jorge Amado, irmãos Villas Boas.)

E um pouco disso está na exposição do (um tanto sisudo) Centro Cultural Sesi-Fiesp São Paulo (Av. Paulista, 1313, até 4 de julho), justa homenagem a essa artista, mestra em técnica mas também na poesia e na alegria e, ainda, que nos dá um documento histórico dessas últimas décadas, um encanto para todos aqueles que se interessam por
fotografia (que sombras! que luzes!) ou simplesmente por tudo que é beleza.

sábado, 5 de junho de 2010

Tulpan



Assisti Tulpan ao meio dia do domingo da última Virada Cultural de São Paulo, no Cine Olido, entre uns outros poucos solitários e a moçada que dormia aproveitando a sala e recarregando pilha pro fim da festa.
O filme de Sergey Dvortsevoy (Czaquistão, 2008) é uma grata surpresa e já vale a "viagem" apenas descobrir o povo cazaque, seus rostos asiáticos e, no caso, os hábitos e arranjos sociais e familiares nômades, necessários à sobrevivência num sítio seco, bruto e sua cultura encantadora, pura e curiosa, infelizmente beirando a extinção (que sobreviveu já uma vez, ao devastador stalinismo – o Cazaquistão só se tornou independente da União Soviética em 1991).

Em algum ponto da maior estepe do mundo está uma família nômade, um casal, seus três filhos e o jovem e desajeitado Asa (Askhat Kuchinchirekov), o incômodo cunhado. Asa tem um único desejo, um sonho: ter o seu yurt, as suas ovelhas, a sua mulher, a sua família. Na contramão dos outros (poucos) jovens das redondezas é lá que deseja estar: na estepe. A materialização do sonho será o seu certificado de "existência", de ocupação "legítima" diante dos outros e no lugar que entende, onde está seguro.
E escolha implica dor, que Dvortsevoy nos apresenta em uma das mais belas metáforas que já vi no cinema (um parto, e uma felicíssima sorte que resultou um plano sequência direto poderoso). É a sacação de Asa que, aliás, nos oferece momentos comoventes (o desenho-sonho na gola de marinheiro ou a mesma imagem editada através da janela do trator, entre outros).
Também a idéia de documentário-ficção foi muito feliz (80% do que vemos é real, inclusive, reza a lenda, o elenco – amador, onde apenas Samal Esljamova, Samal, a irmã de Asa, é profissional – viveu de fato naquele yurt meses antes das filmagens) resultando muitas vezes em delicados instantes de intimidade familiar (são lindas as canções), demonstração da rotina nômade e na deslumbrante fotografia que capta com realismo a beleza angustiante de horizontes infinitos, redemoinhos de areia e a desolação, o minimalismo.
Algo especial.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A música que continua.


Noite rara esta do último sábado, mais longa e mais etílica e absolutamente gratificante. Fui finalmente assistir a "Música para ninar dinossauros", em companhia do grande amigo Calixto, pra depois umas cervejas e conversas com o pessoal ali no Parlapatões. Papo bom e boas lembranças de outros papos, lá atrás, quando nos juntávamos assim, poetas ou não, em noites intermináveis.

"Música para ninar dinossauros", de Mário Bortolotto, tem sua mão original, contundente, sincera, um humor delicioso, ótimas sacadas e me comove particularmente, porque caminha sobre a dor, a que sinto, que sentem alguns de nós já com alguma estrada que não se limita à superfície e que inevitavelmente, cedo ou tarde, revela algo de solidão, de desbunde. Não há outra saída. Gosto dos personagens cruzando-se ora jovens, ora maduros, num movimento que me parece sempre obrigar o olho ao relógio do tempo, das meninas (todas tão lindas!) que de repente surpreendem e enternecem tocando um piano ou começando uma canção e da celebração à amizade (explícita entre Mário, Mutarelli e Paulo de Tharso) que só é verdadeira de fato (que inveja!) no universo masculino.

Cumprimento Mário, no final, com confessa tietagem, pela bela peça dessa noite, e também, invísivel, pela fraternidade confortante que me vem sempre da leitura daquilo que diz em seu blog (Atire no dramaturgo) que, entre outras (poucas) coisas bacanas, diariamente me resgata do lado desbotado da vida.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A nossa "Nuit Blanche" amanhecendo com sol.

ou,
a Virada Cultural de São Paulo
ou,
sem neuras, só dez reais no bolso, até onde alcança o prazer.

As ruas do centro por onde hoje não passam carros ficam mais bonitas assim, caminhamos sem claustrofobia, chegamos a nos olhar e até, alguns, a tolerar e sorrir. Na Praça da República ou na Ramos de Azevedo (mesmo diante de tristes lagos vazios) as pessoas se deitam sob o sol, casais, uns últimos bêbados da noite, crianças. Frutas, papinhas de nenê, vinhos ordinários e marijuanas misturam-se e alimentam na mesma sintonia babel das sonoridades de todos os palcos e suas tribos.
Algumas coisas simplesmente não funcionam mais, vão longe as madrugadas etílicas e é num universo solar e mais tranquilo que prefiro estar (enquanto visitam deliciosas e loucas memórias). E poder perceber detalhes antes invisíveis, físicos como ao toque as esculturas de Brizzolara (do entorno da Fonte dos Desejos em frente ao Teatro Municipal) ou tão imateriais como a faísca do choque entre a cidade brutal e essa bandeira branca de atitudes e caras menos sisudas e me impregnar de festa, sem pudores ou juízos. Ir à sessão do meio dia no Olido para chorar diante a delicadeza de Tulpan e depois comprar cervejas no camelô e cair no fervo divertido-cafona de Dancing Queen (do cover ABBA, the Show) e o tchacabum alto astral do palco reggeiro, para terminar viajando nos pés precisos de uma bailarina Kathak (Kanchan Maradan) ao mesmo tempo que no corpo mágico da acrobata suspensa no ar (em cabos de aço no alto do relógio da torre da Júlio Prestes).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ancestralidade

Na certeza ibérica do pai. E a possibilidade árabe/tupi da mãe. Até aqui, onde tudo se acaba.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Alice, diversão.



A Alice de Tim Burton (Alice no País das Maravilhas) é uma interessantíssima diversão teen, para assistir em 3D em companhia de uma robusta barra de chocolate. Por isso não decepciona.
Acho sim, que o Chapeleiro poderia ser um pouco menos Deepniano e dispensaria sua coreografia final (anunciada durante todo o filme), mas é lisérgico e onírico suficiente para que eu mergulhe naquele universo, como muitas vezes na infância, diante do livro, na história que me encanta até hoje e decida finalmente ler as obras integrais de "Lewis Carroll" (As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho) de onde o filme se constroi.
Helena Bonham Carter (a Rainha Vermelha) reina absoluta, está fantástica. Gosto também daquela Alice (Mia Wasikowska) crescida, blasée, quase doce e do deliciosamente malemolente Gato de Cheshire digital.
É um Tim Burton Disney sim, mas ainda um Tim Burton, para ver novamente com calma, em casa, em suas falas originais.

domingo, 2 de maio de 2010

Samhain

Ontem um homem subiu até o alto de uma torre da eletropaulo. Embaixo, um circo de bombeiros, resgates e a platéia que ria, quase torcia e, ávida, guardava em celulares. Tive pena.
Hoje fez sol, imenso e quente de outono e saí para ver as árvores da minha rua. Aqueles que antes esfregaram, poliram e apertaram porcas e parafusos, agora sobem e descem o asfalto, a mil, som estourando. Entristeço.

Mas ainda é Samhain e talvez eu esqueça tudo isso e um dia cante o Stabat de Penderecki.

domingo, 25 de abril de 2010

O telefone toca às 8 horas da manhã do sábado, a cobrar, “bom dia! 015 telefônica, senhora..." Provavelmente aquelas clonagens de cadeia. Para dormir mais um pouco é preciso desligar o aparelho.
Às 11 tomo café de fim de semana, única oportunidade de fazer isso com calma, lendo o jornal, cismando. “sra. Patrícia, bom dia! banco Itaú, a senhora ganhou um cartão de crédito e blá, blá, blá... " Não há argumentos gentis para que ela desista!
Na internet, buscando as notícias (porque há muito a TV é mero monitor do DVD), janelinhas infernais de propaganda abrem a toda hora...

Que mundo mais vagabundo!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Coisas de Sampa

Vou, pela primeira vez, via Ponte Orca (interligação CPTM-Santo André-Tamanduateí/Metrô-Sacomã). Funciona. E é uma alternativa rápida e decente para o ABC ir/vir à Sampa sem carro, embora eu não o faça no horário de pico e é necessário que funcione também aos finais de semana!

Centro Cultural São Paulo
Música erudita às quintas-feiras, meio dia (e sextas, 18:30h)
Um self- service ótimo na varanda do jardim e ainda a sorte de ver, em primeira mão, a exposição fotográfica de Nair Benedicto nos retoques finais para abertura no dia seguinte. Um belo documento do trabalho iniciado na década de 70, dessa pioneira no fotojornalismo crítico social-político-feminista.
O concerto é do Hanuman Trio. Shri Hanuman, violão (e também tabla e harmônio) e os brasileiros Julio Falavigna, tabla e Fábio Mentz, bansuri. As escalas musicais (Ragas) e ritmos (Talas) da música indiana sempre me encantam e intrigam, Shri Hanuman faz uma impressionante apresentação na tabla (que considero o instrumento mais poderoso nessa música) e de cantos sagrados Drupad (norte da Índia) e Karnatic (Sul), há uma linda canção de exaltação ao culto da mãe, aspecto feminino na busca do absoluto.

Andy Warhol Mr. América
Estação Pinacoteca - até 23 de maio 2010.
Caprichada exposição das obras mais pontuais. Uma viagem pela sua personalidade original, criativa, múltipla, através das serigrafias, polaróides, fotos trabalhadas. Esvazia e ironiza ícones contemporâneos, padrões de beleza, o consumo, o orgulho (norte) americano, ao mesmo tempo que os diviniza.
Há apontamentos ótimos de seu pensamento como quando, em crise criativa, recebe o conselho de trabalhar naquilo que mais ame na vida e ele faz a famosa One dollar bills (1962). Ou, “... quando você vê a imagem repetidas vezes ela perde toda sua força” e faz séries e séries e os trabalhos com acidentes fatais, assassinos. Ou “São os filmes, desde que eles foram inventados, que têm realmente conduzido as coisas na América. Eles mostram o que devemos fazer, como fazê-lo, quando, como se sentir sobre o que fizermos, e como aparentar aquilo que sentimos...” (e isso me lembrou também o nosso Paulo Leminski)
Os comentários de alguns visitantes em uníssonos desafinados também são bastante divertidos: “Pô, no photoshop faço isso em 5 minutos!” “Queria tanto saber se ele transou mesmo com o Lou Reed!”.

Memorial da Resistência
Estação Pinacoteca, permanente

Aquelas celas sempre doem.

Família Ferrez. Novas revelações
Galeria Olido - até 23 de maio 2010
.
Admirável acervo familiar com 396 imagens centenárias, realizadas pelos filhos Júlio e Luciano e o neto Gilberto, do importante fotógrafo franco-brasileiro do século 19 Marc Ferrez. É um muito interessante documento, principalmente do Rio de Janeiro (há outras cidades brasileiras, alguns países europeus e africanos), da nossa Belle Époque, da família tradicional burguesa, da histórica exclusão social (há fotos contundentes como aquelas que retratam obras grandes no Rio de Janeiro, como o desmonte do morro do Castelo -1921/1922- de Luciano Ferrez ou dos aterros na orla marítima: todos os trabalhadores são negros. E Trabalho no campo em Juiz de Fora, MG -1941- Luciano Ferrez- de um grupo de trabalhadores de várias idades: todos negros e descalços!)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O meu lugar

Parque Central, cidade de Santo André-Centro.

Toda uma tarde de sol e árvores no Parque Central. Algum conforto. Talvez a minha religião.

domingo, 18 de abril de 2010

14/04. Quarta-feira.

Quarta tem feira livre na minha rua. Em meu apartamento ainda é outono e todo o sol que há, e já vai alto, as cores, cheiros e gritos dissonantes chamam para a vida. E os pastéis, ah! os pastéis!
As mulheres já trouxeram da escola suas crianças e as roupas da manhã tremem secas na corda comunitária, podem agora conversar e rir sob a minha janela. Também é pausa para o pedreiro da eterna (e infernal) reforma do apartamento acima e para os pássaros que vêm comer no quintal, numa seqüência respeitosa de tamanhos e espécies que tento decifrar.

É lua nova, talvez com ternura e calma Hécate me ensine cortar. E sobreviver.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Filmes, filmes...

A grande surpresa da minha pilha de filmes de férias, até o momento, é À Deriva, do Heitor Dhalia.
Já na cena de abertura, três pontos fortes do filme: um piano de beleza desconcertante acompanha a imagem que vai fazendo-se através da água marinha, que o sol ilumina e que revela, aos poucos, os corpos de uma menina e seu pai, brincando de boiar na praia.
Pronto. A Fotografia (Ricardo Della Rosa) tem aproveitamentos absolutamente felizes das luzes (diurnas e noturnas, onde gosto das piscinas iluminadas), que sempre nos lembram: estamos no verão de Búzios. No conjunto, há recortes de detalhes, closes e andamentos muito (e com poética) afinados com a trama.
A Trilha sonora minimalista (Antonio Pinto, que também fez a de Central do Brasil) é tocante e intensa. Também gosto bastante das intervenções incidentais.
E o afeto. Aos 14 anos, enquanto assiste à desintegração do casamento de seus pais, com inteligência, ousadia e todos os hormônios, Felipa (a gracinha Laura Neiva) vai se apropriando de um mundo adulto cheio de suas contradições, desencantos e tragédias mas, atraente, interessante e inevitável. É um filme de despedidas, talvez um último verão juntos, a família, a turminha da praia (e deliciosas brincadeiras, paqueras, provocações e medos), último verão da ingenuidade. Mas, principalmente, é um filme do afeto. Há afeto entre os irmãos no sofrimento diante da separação dos pais, na escolha dolorosa que faz a mãe (Clarice, a arrepiante Débora Bloch) e entre aquele pai (Matias, o charmoso Vincent Cassel) e sua prole, entre ele e a primogênita e naquilo que ele descobre de si (o macho ferido e o peso da traição pontuam o filme, inclusive há uma referência clara à morte de Ângela Diniz, a "Pantera de Minas" assassinada por Doca Street em Búzios-1976, e Ângela também é o nome da amante fugaz de Matias) e é sensivelmente traduzido quando ele, sozinho com os filhos, finalmente vai lavar a louça.
Tudo se conta com delicadeza.

Particularmente, me encanta, quase com nostalgia, todo aquele astral. De casa de praia meio rústica mas elegante, onde se improvisa uma ocupação descontraída e preguiçosa de férias, com dias passados de maiô, pés no chão arrastando areia, os cabelos sempre molhados de infinitos banhos de mar, chuveirão, mangueira, piscina (as cenas de água são deliciosas), a pele escurecendo aos poucos. São lembranças, creio que as minhas melhores, de alegria e liberdade, de todos os meus verões na praia (alguns naquela mesma costa e principalmente na inesquecível Ilhabela), dos meus prósperos anos 80. Aliás, Alexandre Herchcovitch faz um meticuloso trabalho de reconstituição daquele início de década (como usei aquelas bermudas de linho da Clarice! ).





Vejo também:

Nossa vida não cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, baseado na peça Nossa vida não vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto (que fez e participa da bacana trilha sonora, mas não gostou nada do filme). Eu gosto, é bruto, tem o amargo e o desesperançado da vida e personagens pesados, à margem. Mas, conhecendo outros trabalhos seus e um pouco do pensamento que nos mostra em seu blog Atire no Dramaturgo (que acompanho) o original Mário Bortolotto, acho válidas todas as suas críticas e gostaria muito mesmo é de ter assistido à peça.

Almoço em Agosto (Pranzo di Ferragosto), de Gianni Di Gregório. Encantadores 75 minutos sobre o que acontece em um feriado de 15 de agosto (o feriadão italiano da festa Della Madonna, ascensão da Virgem Maria) a um solteirão em bancarrota, sua mãe e outras idosas que entram em suas vidas por acaso. A solidão, o tempo e ainda a alegria e a amizade, regados a muito vinho e em boa mesa.

A Janela (La Ventana), do argentino Carlos Sorin. Ainda a solidão, o tempo, alguma mágoa, no melancólico dia em que um velho homem despede-se da vida, em uma fazenda distante na Patagônia. As interpretações dão o sentido de alguma ironia e naturalidade diante do inevitável (ele não utiliza atores mas pessoas em seus papéis reais). Tem bonita fotografia.

Os Falsários (Die Fälscher), Áustria, Stefan Ruzowitzky. A curiosa (e real) história de um grupo de judeus, em um campo de concentração, obrigados a produzir dinheiro falso que irá financiar o nazismo e engordar a economia alemã. Salomon (brilhante Karl Markovics), líder do grupo, é mestre nessa arte e na de sair de enrascadas e com inteligência e sangue frio contornar situações no grupo e junto aos alemães. Também diz da dor, do medo, da incompreensão, da corrupção, do idealismo, da dignidade.

E, por fim, um presente da sorte: na fita do VHS que ficou ligado pela madrugada, ao acaso, gravou-se A noviça rebelde, que se transforma em bela "Sessão da Tarde" afetiva de um dia que seria apenas frio e chuvoso.

domingo, 11 de abril de 2010

O MP3

Ainda no precioso pacote há o disco Smetak (1975) de Anton Walter Smetak, compositor, educador musical, escultor e escritor suíço que viveu muitos anos no Brasil até sua morte em 1984. Descobri Smetak no final dos 80, assistindo à palestra que faziam Caetano Veloso e José Miguel Wisnik em uma galeria de arte em São Paulo, havia, inclusive, instrumentos de sua invenção, as plásticas sonoras, interessantes e estranhas obras criadas especialmente para tocar música microtonal e, de lá para cá, só tive acesso a alguns fragmentos de suas composições. Esse disco é uma jóia de sonoridades e invenção, gosto especialmente das intervenções no cello (seu instrumento de formação).

E Lhasa de Sela. A fantástica! Aqui, pinçadas algumas coisas de seus três únicos álbuns (La Llorona, The Living Road e Lhasa, do período 1998 a 2009). Ela compôs e cantou principalmente em língua espanhola (americana, pai mexicano, mãe judia-libanesa, viveu em muitos lugares e circos, fixou-se em Montreal-Canadá), recusando o mainstream, fazendo letras e arranjos belos e inteligentes com uma voz incrível, escura, dramática. São muitas vezes lamentos, aqueles da urgência que tem a dor em sair, queimando ("he venido encendida al desierto pa' quemar, porque el alma prende fuego cuando deja de amar"), mas sempre com o bom gosto dos que sabem cantar a dor em sua dignidade.
Lhasa cruzou la frontera nesse janeiro de 2010.

Ao amigo, obrigada! Valeu muito o presente!

sábado, 10 de abril de 2010

Entre a Diana e a Monte Casseros.

Hoje em alguns instantes houve sol, que encorajou sair mais cedo para o ensaio do coro de todos os sábados. Comprei uns crocs baratinhos (serão os já necessários chinelos de inverno) nos baixos da Estação e depois pulei daquele universo multicolorido e barulhento de todos os sotaques e cheiros dos botecos e churrascos-gregos da Travessa Diana, para a Monte Casseros, os edifícios tradicionais, suas senhoras elegantes e o restaurante de serviço gentil e feijoada caprichada. Um pulo e tanto. Seria, na pauta do canto, o momento em que vai a nota, de um salto, do grave ao agudo, há que ter ciência, preparar apoio. Faltou lá atrás, em algum momento caminhei às cegas e ficou essa dupla identidade e um oco desajeitado que regurgita amargo assim às vezes, mas que pode ser também, por não haver volta, o barato de existir em dois mundos. Ou só coisas que surgem quando, em uma mesa, sozinha se toma um café.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vacaciones II

Procuro sempre um olhar de reverência à natureza, que respeite seus ciclos, humores e tente compreender as mensagens ocultas. Por isso nesses dias de férias tão frios e úmidos, tão quase querendo tudo entristecer, vou saboreando devagar uns cds e dvds que já se empoeiravam a espera de atenção.
Recentemente ganhei algumas coisas muito variadas em mp3 e descubro preciosidades como uma série de discos do TomZé, de diversas épocas! TomZé sempre irá me surpreender e tudo soa irretocável, é um compositor brilhante, inventivo, curioso, um pensador crítico e um poeta. Filho legítimo da escola de liberdade de Koellreutter.
Também há ali o Grupo Rumo que (pecado) conhecia quase nada. Gosto de cara! Um pessoal talentoso (Luiz e Paulo Tatit, Ná Ozzetti, Gal Oppido - hoje fotógrafo- etc.), vanguarda paulista dos anos 80. Inteligentes experimentos com o som e a palavra num resultado divertido que, de quebra, me presta o favor de mandar para o lixo umas bobagens-pastiche que teimava em guardar na (transbordante) estante de música.
E Domenico+2, Kassin+2, Moreno+2 (Domenico Lancelotti, Alexandre Kassin, Moreno Veloso) super novidades para mim. Que interessam. A começar pela proposta dos três por trabalhos assim separados (cada um mais os outros dois) e a mistura: bom instrumental, eletrônico, experimentos, diferentes levadas. É elegante. É carioca. É jovem. É uma luz nessa mesmice chata que tem sido a cena que ouço ultimamente. Para ouvir devagar e mais vezes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lemon Tree



Lemon Tree, do israelense Eran Riklis, acontece na Linha Verde, fronteira Israel-Cisjordânia, onde o governo israelense ainda constrói o terrível Muro da Cisjordânia (e segrega e abocanha). O filme é, principalmente, uma metáfora do Muro (porque de tão interessante são possíveis outras abordagens).

A solitária palestina Salma (Hiam Abbass, a bonita e muito expressiva atriz de O visitante), viúva, já criou os filhos e hoje apenas cultiva seu modesto pomar de limões, como fez durante toda a vida. Muda-se para a bela casa vizinha, Mira (Rona Lipaz-Michael), profissional autônoma, com uma filha distante no afeto e no espaço e a principal “função”: esposa do ministro de defesa de Israel. E o conflito se instaura. Por segurança o pomar deverá ser destruído, terroristas podem utilizá-lo como camuflagem em um ataque (um dos motivos que justificam a construção do Muro da Cisjordânia). Salma leva a briga (aparentemente banal) até a Suprema Corte de Israel e a questão alcança visibilidade mundial.

Separadas, mas juntas em opressão e solidão. A casa high-tech de Mira é um bunker de insatisfação, da farsa da “esposa feliz”, de uma consciência amordaçada, da traição pelas frestas. Tudo é sufocante, castrador. Acho bastante simbólica a cena em que ela trabalha projetos no laptop, em uma mesa de cozinha, sinaliza o lugar que realmente lhe cabe naquele universo. Para Salma, os dogmas religiosos (e sociais) deixam tudo mais explícito, ela é constantemente vigiada, julgada, sua tristeza está na cara.

O ser feminino, frágil a "necessitar" proteção, cuidado. Poder, muro, guarita. Um Estado forte, hábil, próspero. Uma terra enfraquecida, que não cicatriza. E tudo o que pode surpreender. Quando se liberta Mira, quando a indignação revela coragem de luta e amor em Salma. E tudo fica bonito contado dessa forma feminina, há momentos de sutilezas como um toque de mãos, um beijo realizado, o gesto de um lenço não colocado sobre os cabelos, a expressão das duas mulheres quando se confrontam, a cumplicidade silenciosa, o reconhecimento das semelhanças.

O verde pomar é a fronteira (chama-se Linha Verde a fronteira entre Israel/Egito-Cisjordânia-Líbano-Síria, traçada em tinta verde no mapa durante antigas negociações). E Lemon Tree, a canção em inglês (numa levada regional) que abre o filme, é quase um cancioneiro universal (no Brasil foi gravada como Meu limão, meu limoeiro) poderia ser um hino de todos nós que não cremos na imposição de fronteiras e muralhas e nos entristecemos com essa guerra infinita. Verde, também, talvez seja mesmo a cor da esperança.

“Lemon tree very pretty/ and the lemon flower is sweet/
but the fruit of the poor lemon is impossible to eat.”


Banksy na Cisjordânia

terça-feira, 6 de abril de 2010

O que germina no tempo.

“O dia deu em chuvoso”.
Há anos dias assim como esse agora, de pingos tristemente recitando uma mesma nota, acordam esse início de poema lido lá longe, no livro descoberto ao acaso entre os tantos na estante da mãe (naquele tempo eles não vinham empoeirados como hoje, na quase mesma estante). Ia pelo título, pela capa ou pelo folhear, qualquer coisa que me arregalasse os olhos pela novidade (que muitas vezes ficaria latente, num lento germinar). “O eu profundo e os outros eus” tinha aquela capa que gostava, branca e azul com a estátua de rosto sangrando (La mémoire, 1948, de Magritte), que por fim roubei e levei comigo pela vida. Até emprestar ao amigo que nunca o devolveu, então veio aquele volume do sebo já com a xilogravura à capa (de Cabanas) que teve (com um irmão gêmeo) honras em misturar-se à bela biblioteca de casada que construímos (quando compreendi melhor Fernando Pessoa e a poesia) e finalmente quase perdeu-se na partilha da separação.
Quando agora a frase vem, na manhã cinza, silenciosa e longa desse meu dia de férias, faz todo o sentido novamente reler inteiro o poema Trapo. N
a contracapa do livro que encontro, o nome anotado à caneta, em 95, não é o meu. Ficou da partilha.

domingo, 21 de março de 2010

Ang Lee

Taking Woodstock é uma delícia, um legítimo Ang Lee, nas cores (ele me parece sempre partir de uma base e ir “viajando” em cima, nesse caso, a cor verde), em como toca com elegância temas difíceis (aqui, a mãe avarento-castradora, a contracultura X convenção X capitalismo), no resultado bem alinhavado, agradável aos olhos e ao pensamento.
E já havia para mim O Tigre e o Dragão, o (erotizado) Desejo e Perigo e Brokeback Mountain, talvez a grande história de amor do cinema.

Particularmente, em Taking Woodstock fica ainda um pertencimento, uma alegria, um déjà-vu, porque não vivi realmente aquele tempo, panacona aos 13 anos que era, por sorte algo daqueles ventos que sopravam ficou em minhas entrelinhas. Até aqui.







Hoje à noite já é Mabon.

Já é Outono. Tem uma Nova quase Crescente bem aqui no recorte da janela do escritório e cheira bem o gramado que choveu. Desligo a Naomi Munakata, o Vozes, para apenas ouvir os grilos, cantam baixinho hoje, talvez seja noite de bocca chiusa ou eles sabem que já é Mabon e esse equinócio pede recolhimento, calma, reflexão ou que Hades não perceba a beleza desse instante.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Pedro Martinelli

Conversa de Livraria com o Fotógrafo Pedro Martinelli
Livraria e Centro Cultural Alpharrabio de Santo André
15/03/2010


Noite de segundona no Alpha, vou ver de perto esse fotógrafo cuja obra conheço e admiro.
Pedro Martinelli tem uma trajetória riquíssima na fotografia e disso nos fala, deliciosamente, até porque também vive uma vida admirável. Conterrâneo e contemporâneo, conta de caçadas da infância por matas de aqui que nunca imaginei e que provavelmente hoje não existam mais, como não existe mais o riozinho “Tchibum” (como chamávamos) nos fundos da minha eterna casa da Alameda São Caetano, onde buscávamos, pelas margens, barro para moldar coisas de criança ou catávamos, com meu pai, esterco para viçar o quintal. Corríamos livres por tudo aquilo que hoje é a Avenida Prestes Maia.
Das caçadas em Santo André para, já fotógrafo, um precioso trabalho com os irmãos Villas Boas na Amazônia, dali para carreira no fotojornalismo em grandes veículos e mil e uma coisas na área, esse homem viveu tudo na fotografia e o melhor é saber disso tudo por ele, ali, informalmente, muitas vezes dito com a vivacidade de uma “prosa de pescador”, um “causo” ou um papo de gourmet mas, sempre, com integridade e toda a idealista e persistente paixão terra-capricorniana.
Esse artista tem, felizmente, belos livros e um blog (http://www.pedromartinelli.com.br/) que já estou devorando, embora, vontade mesmo era de estar ali junto, águas amazônicas, naquele seu barco, ouvindo, vendo e aprendendo. Navegando




terça-feira, 16 de março de 2010

Anticristo



A idéia de registrar impressões sobre o Anticristo do Lars Von Trier despertou uma reflexão sobre minha longa relação com a arte do cinema. Sem grandes encanações (disso busco distância nesse momento), com clareza do meu diletantismo mas com a certeza de que algo esse repertório me acrescentou, pela fruição por si só, pela curiosidade que levou a pequenas pesquisas.

Anticristo perturbou, não com desconforto (como ainda me perturbam alguns outros filmes), com encantamento. É filme para rever, como também foi com Dogville, Manderley (meus favoritos do Lars) ou Dançando no Escuro e Ondas do Destino.
Signos esclarecedores são revelados no prólogo PB. De cara, pela lentidão da câmara e a belíssima ária de Lascia Ch'io Pianga de Häeldel ("...deixe-me chorar pelo meu destino cruel e porque eu desejo liberdade, deixe-me lamentar meu destino cruel." ) antagoniza o sexo intenso e frenético do casal. A brincadeira solitário-feliz da criança desemboca na tragédia que por sua vez se confunde com a bela queda de flocos de neve. Roupas continuam a girar dentro da máquina de lavar. Há um lapso de olhar de mãe. Misturas, contínuo, arrebatamento, lucidez, prazer, dor: vida-morte. É belo.
E daí se desenvolve a grande metáfora, uma costura primorosa e a grandeza do filme, na saga angustiante deste casal "perdido" na terrível "natureza" do "Éden", Deusa versus o Deus Cornífero do paganismo, a crueza dos Três Mendigos (sofrimento/dor/desespero-morte) da culpa judaico-cristã, as crias mortas. Um jogo de dominação/ subjugação, desejo/culpa/remissão.
Metáfora de todos nós, nossa natureza humana. É um filme religioso. Mas ainda algo sobre libertação e dito com o assencial: beleza, o que me levou a lembrar o Sacrifício de Tarkovsky (mesmo antes de ter chegado à dedicatória que Lars faz no final do filme). Talvez doloroso demais para um entendimento de prima.

E.T: Felicíssima a escolha da expressiva Charlotte Gainsbourg (que eu desconhecia como atriz) e Willen Dafoe.
E.T1: A crítica midiática absolutamente não me interessa, a dos amigos/parceiros sim.



domingo, 14 de março de 2010

Sincronicidade

07 de março. Ingressos esgotados. Na fila, que dá voltas desanimadoras pelo estacionamento da Sala São Paulo, aguardamos que se complete a platéia e improváveis lugares nos sobrem. Trato de ir corrigindo mentalmente a programação para o domingo, que começaria com o Concerto Matinal da OSESP. Eis que, meio desajeitado, um rapaz oferece a mim e ao senhor logo atrás, os seus ingressos. A fila toda aplaude e nós (salvos por nossos cabelos brancos), entre felizes e constrangidos, seguimos juntos.
Wilmar, meu companheiro de fortuna, além de bom conhecedor de canto lírico é um gentleman, ouvir Schumann e Debussy (pelas mãos de um bem humorado Yan Pascal Tortelier) nunca foi tão gratificante.
E o domingo segue com novo brilho, aquele do imponderável que me desperta para outra perspectiva, para o que pode ser fraterno, generoso. Para a leveza que posso ter.

09 de março. Joselisa, a seguidora misteriosa desse Sanyasa é a jovem soprano que se senta ao meu lado no ensaio do coro (Coro da Cidade de Santo André)! Garota serena que também ama os filmes e a música, cheia de interesses e curiosidades, original, como é a moçada bacana distanciada de clichês, que renova a esperança.

Epifanias.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco

Choque. Dia de grande tristeza e perda. Para a arte, para o pensamento, para a alegria, para a minha história, para esse nosso pobre mundo.
Eterna, tua obra vive. E nada mais a dizer.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Allegro Affettuoso

Quando quase acaba um sábado na casa da Rua das Laranjeiras, vêm já as sombras e o silêncio a mostrar toda a ausência que hoje há.
Só Clara & Estela (luz & luz), o exagero de falas, risos, a afeição sincera, o querer estar perto (o amor que é fato porque se fez no início) me salvam, nutrem e reconstróem. Esperança.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Reencontros

Em dezembro tive o grande prazer de rever minha amiga Mirna, após uma distância de vinte anos. Numa daquelas coincidências belas da vida, localizei-a no facebook e por sorte, ela que mora há muitos, muitos anos na Inglaterra, estava de visita ao Brasil.

Foi uma linda tarde em casa de sua mãe, dona Rita, na Vila Industrial, lanchando, falando muito, rindo (que risada boa ela tem) e embora percebendo toda a vida que já vivemos, tudo estava muito próximo de outras tardes, assim como essa, com nossas mães, cafés, muitos papos e muitos sonhos. Que uma chuva imensa saudou.



E ontem foi a vez de reencontrar Todorowicz, Carlos, Mané, dos velhos tempos do Bradesco da Senador Fláquer. Trinta anos, muitas histórias de juventude e alegria, que creio, graças à ternura e persistência do Todô terá replay.

E aí, muito do tudo vale a pena.

"Por que é que a gente tem que ser marginal ou cidadão?"


No último sábado assisti ao Estudando a Bossa do TomZé no SESC Santo André. É preciso sempre e sempre dizer o quanto Tom é genial, como tão bem conhece e transa a música, o letrista engenhoso, fino, lúcido, o artista corajoso, inventivo e o homem encantador que é. Tive a sorte de descobrí-lo quando era permitido ouvir coisas assim no rádio, dessas coisas que nos libertam a alma.

em alguma noite dos anos 90, no Parque Celso Daniel de Santo André