domingo, 25 de abril de 2010

O telefone toca às 8 horas da manhã do sábado, a cobrar, “bom dia! 015 telefônica, senhora..." Provavelmente aquelas clonagens de cadeia. Para dormir mais um pouco é preciso desligar o aparelho.
Às 11 tomo café de fim de semana, única oportunidade de fazer isso com calma, lendo o jornal, cismando. “sra. Patrícia, bom dia! banco Itaú, a senhora ganhou um cartão de crédito e blá, blá, blá... " Não há argumentos gentis para que ela desista!
Na internet, buscando as notícias (porque há muito a TV é mero monitor do DVD), janelinhas infernais de propaganda abrem a toda hora...

Que mundo mais vagabundo!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Coisas de Sampa

Vou, pela primeira vez, via Ponte Orca (interligação CPTM-Santo André-Tamanduateí/Metrô-Sacomã). Funciona. E é uma alternativa rápida e decente para o ABC ir/vir à Sampa sem carro, embora eu não o faça no horário de pico e é necessário que funcione também aos finais de semana!

Centro Cultural São Paulo
Música erudita às quintas-feiras, meio dia (e sextas, 18:30h)
Um self- service ótimo na varanda do jardim e ainda a sorte de ver, em primeira mão, a exposição fotográfica de Nair Benedicto nos retoques finais para abertura no dia seguinte. Um belo documento do trabalho iniciado na década de 70, dessa pioneira no fotojornalismo crítico social-político-feminista.
O concerto é do Hanuman Trio. Shri Hanuman, violão (e também tabla e harmônio) e os brasileiros Julio Falavigna, tabla e Fábio Mentz, bansuri. As escalas musicais (Ragas) e ritmos (Talas) da música indiana sempre me encantam e intrigam, Shri Hanuman faz uma impressionante apresentação na tabla (que considero o instrumento mais poderoso nessa música) e de cantos sagrados Drupad (norte da Índia) e Karnatic (Sul), há uma linda canção de exaltação ao culto da mãe, aspecto feminino na busca do absoluto.

Andy Warhol Mr. América
Estação Pinacoteca - até 23 de maio 2010.
Caprichada exposição das obras mais pontuais. Uma viagem pela sua personalidade original, criativa, múltipla, através das serigrafias, polaróides, fotos trabalhadas. Esvazia e ironiza ícones contemporâneos, padrões de beleza, o consumo, o orgulho (norte) americano, ao mesmo tempo que os diviniza.
Há apontamentos ótimos de seu pensamento como quando, em crise criativa, recebe o conselho de trabalhar naquilo que mais ame na vida e ele faz a famosa One dollar bills (1962). Ou, “... quando você vê a imagem repetidas vezes ela perde toda sua força” e faz séries e séries e os trabalhos com acidentes fatais, assassinos. Ou “São os filmes, desde que eles foram inventados, que têm realmente conduzido as coisas na América. Eles mostram o que devemos fazer, como fazê-lo, quando, como se sentir sobre o que fizermos, e como aparentar aquilo que sentimos...” (e isso me lembrou também o nosso Paulo Leminski)
Os comentários de alguns visitantes em uníssonos desafinados também são bastante divertidos: “Pô, no photoshop faço isso em 5 minutos!” “Queria tanto saber se ele transou mesmo com o Lou Reed!”.

Memorial da Resistência
Estação Pinacoteca, permanente

Aquelas celas sempre doem.

Família Ferrez. Novas revelações
Galeria Olido - até 23 de maio 2010
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Admirável acervo familiar com 396 imagens centenárias, realizadas pelos filhos Júlio e Luciano e o neto Gilberto, do importante fotógrafo franco-brasileiro do século 19 Marc Ferrez. É um muito interessante documento, principalmente do Rio de Janeiro (há outras cidades brasileiras, alguns países europeus e africanos), da nossa Belle Époque, da família tradicional burguesa, da histórica exclusão social (há fotos contundentes como aquelas que retratam obras grandes no Rio de Janeiro, como o desmonte do morro do Castelo -1921/1922- de Luciano Ferrez ou dos aterros na orla marítima: todos os trabalhadores são negros. E Trabalho no campo em Juiz de Fora, MG -1941- Luciano Ferrez- de um grupo de trabalhadores de várias idades: todos negros e descalços!)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O meu lugar

Parque Central, cidade de Santo André-Centro.

Toda uma tarde de sol e árvores no Parque Central. Algum conforto. Talvez a minha religião.

domingo, 18 de abril de 2010

14/04. Quarta-feira.

Quarta tem feira livre na minha rua. Em meu apartamento ainda é outono e todo o sol que há, e já vai alto, as cores, cheiros e gritos dissonantes chamam para a vida. E os pastéis, ah! os pastéis!
As mulheres já trouxeram da escola suas crianças e as roupas da manhã tremem secas na corda comunitária, podem agora conversar e rir sob a minha janela. Também é pausa para o pedreiro da eterna (e infernal) reforma do apartamento acima e para os pássaros que vêm comer no quintal, numa seqüência respeitosa de tamanhos e espécies que tento decifrar.

É lua nova, talvez com ternura e calma Hécate me ensine cortar. E sobreviver.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Filmes, filmes...

A grande surpresa da minha pilha de filmes de férias, até o momento, é À Deriva, do Heitor Dhalia.
Já na cena de abertura, três pontos fortes do filme: um piano de beleza desconcertante acompanha a imagem que vai fazendo-se através da água marinha, que o sol ilumina e que revela, aos poucos, os corpos de uma menina e seu pai, brincando de boiar na praia.
Pronto. A Fotografia (Ricardo Della Rosa) tem aproveitamentos absolutamente felizes das luzes (diurnas e noturnas, onde gosto das piscinas iluminadas), que sempre nos lembram: estamos no verão de Búzios. No conjunto, há recortes de detalhes, closes e andamentos muito (e com poética) afinados com a trama.
A Trilha sonora minimalista (Antonio Pinto, que também fez a de Central do Brasil) é tocante e intensa. Também gosto bastante das intervenções incidentais.
E o afeto. Aos 14 anos, enquanto assiste à desintegração do casamento de seus pais, com inteligência, ousadia e todos os hormônios, Felipa (a gracinha Laura Neiva) vai se apropriando de um mundo adulto cheio de suas contradições, desencantos e tragédias mas, atraente, interessante e inevitável. É um filme de despedidas, talvez um último verão juntos, a família, a turminha da praia (e deliciosas brincadeiras, paqueras, provocações e medos), último verão da ingenuidade. Mas, principalmente, é um filme do afeto. Há afeto entre os irmãos no sofrimento diante da separação dos pais, na escolha dolorosa que faz a mãe (Clarice, a arrepiante Débora Bloch) e entre aquele pai (Matias, o charmoso Vincent Cassel) e sua prole, entre ele e a primogênita e naquilo que ele descobre de si (o macho ferido e o peso da traição pontuam o filme, inclusive há uma referência clara à morte de Ângela Diniz, a "Pantera de Minas" assassinada por Doca Street em Búzios-1976, e Ângela também é o nome da amante fugaz de Matias) e é sensivelmente traduzido quando ele, sozinho com os filhos, finalmente vai lavar a louça.
Tudo se conta com delicadeza.

Particularmente, me encanta, quase com nostalgia, todo aquele astral. De casa de praia meio rústica mas elegante, onde se improvisa uma ocupação descontraída e preguiçosa de férias, com dias passados de maiô, pés no chão arrastando areia, os cabelos sempre molhados de infinitos banhos de mar, chuveirão, mangueira, piscina (as cenas de água são deliciosas), a pele escurecendo aos poucos. São lembranças, creio que as minhas melhores, de alegria e liberdade, de todos os meus verões na praia (alguns naquela mesma costa e principalmente na inesquecível Ilhabela), dos meus prósperos anos 80. Aliás, Alexandre Herchcovitch faz um meticuloso trabalho de reconstituição daquele início de década (como usei aquelas bermudas de linho da Clarice! ).





Vejo também:

Nossa vida não cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, baseado na peça Nossa vida não vale um Chevrolet, do Mário Bortolotto (que fez e participa da bacana trilha sonora, mas não gostou nada do filme). Eu gosto, é bruto, tem o amargo e o desesperançado da vida e personagens pesados, à margem. Mas, conhecendo outros trabalhos seus e um pouco do pensamento que nos mostra em seu blog Atire no Dramaturgo (que acompanho) o original Mário Bortolotto, acho válidas todas as suas críticas e gostaria muito mesmo é de ter assistido à peça.

Almoço em Agosto (Pranzo di Ferragosto), de Gianni Di Gregório. Encantadores 75 minutos sobre o que acontece em um feriado de 15 de agosto (o feriadão italiano da festa Della Madonna, ascensão da Virgem Maria) a um solteirão em bancarrota, sua mãe e outras idosas que entram em suas vidas por acaso. A solidão, o tempo e ainda a alegria e a amizade, regados a muito vinho e em boa mesa.

A Janela (La Ventana), do argentino Carlos Sorin. Ainda a solidão, o tempo, alguma mágoa, no melancólico dia em que um velho homem despede-se da vida, em uma fazenda distante na Patagônia. As interpretações dão o sentido de alguma ironia e naturalidade diante do inevitável (ele não utiliza atores mas pessoas em seus papéis reais). Tem bonita fotografia.

Os Falsários (Die Fälscher), Áustria, Stefan Ruzowitzky. A curiosa (e real) história de um grupo de judeus, em um campo de concentração, obrigados a produzir dinheiro falso que irá financiar o nazismo e engordar a economia alemã. Salomon (brilhante Karl Markovics), líder do grupo, é mestre nessa arte e na de sair de enrascadas e com inteligência e sangue frio contornar situações no grupo e junto aos alemães. Também diz da dor, do medo, da incompreensão, da corrupção, do idealismo, da dignidade.

E, por fim, um presente da sorte: na fita do VHS que ficou ligado pela madrugada, ao acaso, gravou-se A noviça rebelde, que se transforma em bela "Sessão da Tarde" afetiva de um dia que seria apenas frio e chuvoso.

domingo, 11 de abril de 2010

O MP3

Ainda no precioso pacote há o disco Smetak (1975) de Anton Walter Smetak, compositor, educador musical, escultor e escritor suíço que viveu muitos anos no Brasil até sua morte em 1984. Descobri Smetak no final dos 80, assistindo à palestra que faziam Caetano Veloso e José Miguel Wisnik em uma galeria de arte em São Paulo, havia, inclusive, instrumentos de sua invenção, as plásticas sonoras, interessantes e estranhas obras criadas especialmente para tocar música microtonal e, de lá para cá, só tive acesso a alguns fragmentos de suas composições. Esse disco é uma jóia de sonoridades e invenção, gosto especialmente das intervenções no cello (seu instrumento de formação).

E Lhasa de Sela. A fantástica! Aqui, pinçadas algumas coisas de seus três únicos álbuns (La Llorona, The Living Road e Lhasa, do período 1998 a 2009). Ela compôs e cantou principalmente em língua espanhola (americana, pai mexicano, mãe judia-libanesa, viveu em muitos lugares e circos, fixou-se em Montreal-Canadá), recusando o mainstream, fazendo letras e arranjos belos e inteligentes com uma voz incrível, escura, dramática. São muitas vezes lamentos, aqueles da urgência que tem a dor em sair, queimando ("he venido encendida al desierto pa' quemar, porque el alma prende fuego cuando deja de amar"), mas sempre com o bom gosto dos que sabem cantar a dor em sua dignidade.
Lhasa cruzou la frontera nesse janeiro de 2010.

Ao amigo, obrigada! Valeu muito o presente!

sábado, 10 de abril de 2010

Entre a Diana e a Monte Casseros.

Hoje em alguns instantes houve sol, que encorajou sair mais cedo para o ensaio do coro de todos os sábados. Comprei uns crocs baratinhos (serão os já necessários chinelos de inverno) nos baixos da Estação e depois pulei daquele universo multicolorido e barulhento de todos os sotaques e cheiros dos botecos e churrascos-gregos da Travessa Diana, para a Monte Casseros, os edifícios tradicionais, suas senhoras elegantes e o restaurante de serviço gentil e feijoada caprichada. Um pulo e tanto. Seria, na pauta do canto, o momento em que vai a nota, de um salto, do grave ao agudo, há que ter ciência, preparar apoio. Faltou lá atrás, em algum momento caminhei às cegas e ficou essa dupla identidade e um oco desajeitado que regurgita amargo assim às vezes, mas que pode ser também, por não haver volta, o barato de existir em dois mundos. Ou só coisas que surgem quando, em uma mesa, sozinha se toma um café.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vacaciones II

Procuro sempre um olhar de reverência à natureza, que respeite seus ciclos, humores e tente compreender as mensagens ocultas. Por isso nesses dias de férias tão frios e úmidos, tão quase querendo tudo entristecer, vou saboreando devagar uns cds e dvds que já se empoeiravam a espera de atenção.
Recentemente ganhei algumas coisas muito variadas em mp3 e descubro preciosidades como uma série de discos do TomZé, de diversas épocas! TomZé sempre irá me surpreender e tudo soa irretocável, é um compositor brilhante, inventivo, curioso, um pensador crítico e um poeta. Filho legítimo da escola de liberdade de Koellreutter.
Também há ali o Grupo Rumo que (pecado) conhecia quase nada. Gosto de cara! Um pessoal talentoso (Luiz e Paulo Tatit, Ná Ozzetti, Gal Oppido - hoje fotógrafo- etc.), vanguarda paulista dos anos 80. Inteligentes experimentos com o som e a palavra num resultado divertido que, de quebra, me presta o favor de mandar para o lixo umas bobagens-pastiche que teimava em guardar na (transbordante) estante de música.
E Domenico+2, Kassin+2, Moreno+2 (Domenico Lancelotti, Alexandre Kassin, Moreno Veloso) super novidades para mim. Que interessam. A começar pela proposta dos três por trabalhos assim separados (cada um mais os outros dois) e a mistura: bom instrumental, eletrônico, experimentos, diferentes levadas. É elegante. É carioca. É jovem. É uma luz nessa mesmice chata que tem sido a cena que ouço ultimamente. Para ouvir devagar e mais vezes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lemon Tree



Lemon Tree, do israelense Eran Riklis, acontece na Linha Verde, fronteira Israel-Cisjordânia, onde o governo israelense ainda constrói o terrível Muro da Cisjordânia (e segrega e abocanha). O filme é, principalmente, uma metáfora do Muro (porque de tão interessante são possíveis outras abordagens).

A solitária palestina Salma (Hiam Abbass, a bonita e muito expressiva atriz de O visitante), viúva, já criou os filhos e hoje apenas cultiva seu modesto pomar de limões, como fez durante toda a vida. Muda-se para a bela casa vizinha, Mira (Rona Lipaz-Michael), profissional autônoma, com uma filha distante no afeto e no espaço e a principal “função”: esposa do ministro de defesa de Israel. E o conflito se instaura. Por segurança o pomar deverá ser destruído, terroristas podem utilizá-lo como camuflagem em um ataque (um dos motivos que justificam a construção do Muro da Cisjordânia). Salma leva a briga (aparentemente banal) até a Suprema Corte de Israel e a questão alcança visibilidade mundial.

Separadas, mas juntas em opressão e solidão. A casa high-tech de Mira é um bunker de insatisfação, da farsa da “esposa feliz”, de uma consciência amordaçada, da traição pelas frestas. Tudo é sufocante, castrador. Acho bastante simbólica a cena em que ela trabalha projetos no laptop, em uma mesa de cozinha, sinaliza o lugar que realmente lhe cabe naquele universo. Para Salma, os dogmas religiosos (e sociais) deixam tudo mais explícito, ela é constantemente vigiada, julgada, sua tristeza está na cara.

O ser feminino, frágil a "necessitar" proteção, cuidado. Poder, muro, guarita. Um Estado forte, hábil, próspero. Uma terra enfraquecida, que não cicatriza. E tudo o que pode surpreender. Quando se liberta Mira, quando a indignação revela coragem de luta e amor em Salma. E tudo fica bonito contado dessa forma feminina, há momentos de sutilezas como um toque de mãos, um beijo realizado, o gesto de um lenço não colocado sobre os cabelos, a expressão das duas mulheres quando se confrontam, a cumplicidade silenciosa, o reconhecimento das semelhanças.

O verde pomar é a fronteira (chama-se Linha Verde a fronteira entre Israel/Egito-Cisjordânia-Líbano-Síria, traçada em tinta verde no mapa durante antigas negociações). E Lemon Tree, a canção em inglês (numa levada regional) que abre o filme, é quase um cancioneiro universal (no Brasil foi gravada como Meu limão, meu limoeiro) poderia ser um hino de todos nós que não cremos na imposição de fronteiras e muralhas e nos entristecemos com essa guerra infinita. Verde, também, talvez seja mesmo a cor da esperança.

“Lemon tree very pretty/ and the lemon flower is sweet/
but the fruit of the poor lemon is impossible to eat.”


Banksy na Cisjordânia

terça-feira, 6 de abril de 2010

O que germina no tempo.

“O dia deu em chuvoso”.
Há anos dias assim como esse agora, de pingos tristemente recitando uma mesma nota, acordam esse início de poema lido lá longe, no livro descoberto ao acaso entre os tantos na estante da mãe (naquele tempo eles não vinham empoeirados como hoje, na quase mesma estante). Ia pelo título, pela capa ou pelo folhear, qualquer coisa que me arregalasse os olhos pela novidade (que muitas vezes ficaria latente, num lento germinar). “O eu profundo e os outros eus” tinha aquela capa que gostava, branca e azul com a estátua de rosto sangrando (La mémoire, 1948, de Magritte), que por fim roubei e levei comigo pela vida. Até emprestar ao amigo que nunca o devolveu, então veio aquele volume do sebo já com a xilogravura à capa (de Cabanas) que teve (com um irmão gêmeo) honras em misturar-se à bela biblioteca de casada que construímos (quando compreendi melhor Fernando Pessoa e a poesia) e finalmente quase perdeu-se na partilha da separação.
Quando agora a frase vem, na manhã cinza, silenciosa e longa desse meu dia de férias, faz todo o sentido novamente reler inteiro o poema Trapo. N
a contracapa do livro que encontro, o nome anotado à caneta, em 95, não é o meu. Ficou da partilha.