segunda-feira, 24 de maio de 2010

A música que continua.


Noite rara esta do último sábado, mais longa e mais etílica e absolutamente gratificante. Fui finalmente assistir a "Música para ninar dinossauros", em companhia do grande amigo Calixto, pra depois umas cervejas e conversas com o pessoal ali no Parlapatões. Papo bom e boas lembranças de outros papos, lá atrás, quando nos juntávamos assim, poetas ou não, em noites intermináveis.

"Música para ninar dinossauros", de Mário Bortolotto, tem sua mão original, contundente, sincera, um humor delicioso, ótimas sacadas e me comove particularmente, porque caminha sobre a dor, a que sinto, que sentem alguns de nós já com alguma estrada que não se limita à superfície e que inevitavelmente, cedo ou tarde, revela algo de solidão, de desbunde. Não há outra saída. Gosto dos personagens cruzando-se ora jovens, ora maduros, num movimento que me parece sempre obrigar o olho ao relógio do tempo, das meninas (todas tão lindas!) que de repente surpreendem e enternecem tocando um piano ou começando uma canção e da celebração à amizade (explícita entre Mário, Mutarelli e Paulo de Tharso) que só é verdadeira de fato (que inveja!) no universo masculino.

Cumprimento Mário, no final, com confessa tietagem, pela bela peça dessa noite, e também, invísivel, pela fraternidade confortante que me vem sempre da leitura daquilo que diz em seu blog (Atire no dramaturgo) que, entre outras (poucas) coisas bacanas, diariamente me resgata do lado desbotado da vida.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A nossa "Nuit Blanche" amanhecendo com sol.

ou,
a Virada Cultural de São Paulo
ou,
sem neuras, só dez reais no bolso, até onde alcança o prazer.

As ruas do centro por onde hoje não passam carros ficam mais bonitas assim, caminhamos sem claustrofobia, chegamos a nos olhar e até, alguns, a tolerar e sorrir. Na Praça da República ou na Ramos de Azevedo (mesmo diante de tristes lagos vazios) as pessoas se deitam sob o sol, casais, uns últimos bêbados da noite, crianças. Frutas, papinhas de nenê, vinhos ordinários e marijuanas misturam-se e alimentam na mesma sintonia babel das sonoridades de todos os palcos e suas tribos.
Algumas coisas simplesmente não funcionam mais, vão longe as madrugadas etílicas e é num universo solar e mais tranquilo que prefiro estar (enquanto visitam deliciosas e loucas memórias). E poder perceber detalhes antes invisíveis, físicos como ao toque as esculturas de Brizzolara (do entorno da Fonte dos Desejos em frente ao Teatro Municipal) ou tão imateriais como a faísca do choque entre a cidade brutal e essa bandeira branca de atitudes e caras menos sisudas e me impregnar de festa, sem pudores ou juízos. Ir à sessão do meio dia no Olido para chorar diante a delicadeza de Tulpan e depois comprar cervejas no camelô e cair no fervo divertido-cafona de Dancing Queen (do cover ABBA, the Show) e o tchacabum alto astral do palco reggeiro, para terminar viajando nos pés precisos de uma bailarina Kathak (Kanchan Maradan) ao mesmo tempo que no corpo mágico da acrobata suspensa no ar (em cabos de aço no alto do relógio da torre da Júlio Prestes).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ancestralidade

Na certeza ibérica do pai. E a possibilidade árabe/tupi da mãe. Até aqui, onde tudo se acaba.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Alice, diversão.



A Alice de Tim Burton (Alice no País das Maravilhas) é uma interessantíssima diversão teen, para assistir em 3D em companhia de uma robusta barra de chocolate. Por isso não decepciona.
Acho sim, que o Chapeleiro poderia ser um pouco menos Deepniano e dispensaria sua coreografia final (anunciada durante todo o filme), mas é lisérgico e onírico suficiente para que eu mergulhe naquele universo, como muitas vezes na infância, diante do livro, na história que me encanta até hoje e decida finalmente ler as obras integrais de "Lewis Carroll" (As Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho) de onde o filme se constroi.
Helena Bonham Carter (a Rainha Vermelha) reina absoluta, está fantástica. Gosto também daquela Alice (Mia Wasikowska) crescida, blasée, quase doce e do deliciosamente malemolente Gato de Cheshire digital.
É um Tim Burton Disney sim, mas ainda um Tim Burton, para ver novamente com calma, em casa, em suas falas originais.

domingo, 2 de maio de 2010

Samhain

Ontem um homem subiu até o alto de uma torre da eletropaulo. Embaixo, um circo de bombeiros, resgates e a platéia que ria, quase torcia e, ávida, guardava em celulares. Tive pena.
Hoje fez sol, imenso e quente de outono e saí para ver as árvores da minha rua. Aqueles que antes esfregaram, poliram e apertaram porcas e parafusos, agora sobem e descem o asfalto, a mil, som estourando. Entristeço.

Mas ainda é Samhain e talvez eu esqueça tudo isso e um dia cante o Stabat de Penderecki.