sexta-feira, 25 de junho de 2010

Copas do Mundo de Futebol

Copa do mundo sempre me leva de volta a 1970, à sala com janelas para o quintal da casa dos amigos-irmãos Balochinni, a minha família que era inteira e a TV PB transmitindo direto do México (a novidade!) na voz do Geraldo José de Almeida. Até hoje, tenho de cor rosto e nome de cada jogador da seleção tricampeã. Memória de afeto apenas, não havia ainda entendimento da orquestração que fazia daquilo a ditadura, era só alegria pela grande festa com a família e o início da proximidade com esse esporte que, quase por atavismo, atrai tantos de nós brasileiros.
Tive sorte, foi um excelente início e então aproximei-me até onde quis, o suficiente para apreciar quando há beleza e desprezar o mercantilismo no qual se transformou. Por isso é no mínimo aborrecida toda essa comoção, esses brios nacionalistas, essa celebração do que não vai bem e imensa minha satisfação em ser a dita (não para meus pares) "do contra", principalmente no contexto de vida de hoje transbordante em desrespeito e superficialidade.
A integridade que resulta da compreensão que no traz o tempo tem seu traço amargo, mas abre olhos livres. Com esses acompanho a Copa de 2010.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

e desprendeu-se a vontade de Saramago...

Descobri Saramago tardiamente, em 2004 minha mãe insistiu que eu lesse Memorial do Convento, que a havia impressionado, emprestou, li e cai apaixonada por toda aquela escrita impregnada de poesia, fantástica, comovente e absolutamente interessante. Jamais esquecerei Blimunda Sete Luas e seus olhos de enxergar a "vontade" que habita o interior de todos nós.
Então confirmaram a paixão: Ensaio sobre a Cegueira, Objeto Quase, Levantado do Chão e O Caderno de Saramago (o blog) que se consolidará, é certo, no tudo quanto ainda me falta ler (alguns já à espera, aqui nas prateleiras).
Saramago é um daqueles casos raros que me interessam completamente: o artista, o pensador, o homem, a vida, os valores. Um mestre absolutamente admirável, que viveu brilhante, íntegro e lúcido até o dia de hoje, dia que agora é de dor.
Que falta fará a esse (pobre) mundo.

"... Então é nada esta infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada aquele oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é, minha filha, e quanto mais se for prolongando a tua vida melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, Oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara."
(in Memorial do Convento)

domingo, 13 de junho de 2010

A fita branca

(Michael Haneke)

“Tinha vontade de tratar da educação que impõe valores absolutos às crianças, que acabam por interiorizá-los. Queria mostrar que, se têm o caráter formado a partir de um princípio absoluto, elas se tornam inumanas. Cada ato terrorista, cada manifestação de fanatismo, seja ele político, religioso ou de outra natureza, é alimentado por essa fonte de intransigência. Qualquer idéia se torna perversa se tem, como ponto de partida, o autoritarismo. E isso ajuda àqueles, que não têm possibilidade alguma de se defender, seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida.”

Diz Haneke, sobre o seu A fita branca (Das weisse band, 2009) e que nos oferece nas impressões de um professor de crianças de uma comunidade alemã campesina e severamente protestante, no final dos anos 10, pouco antes da primeira Grande Guerra. Os terríveis fatos chegam até nós através de seus olhos, de seus pressupostos, de seu julgamento e de sua memória, já que a narração se faz muitos anos depois. É uma parábola. Revela-se o que se deve manter latente, a inveja, a crueldade, a dissimulação, o desejo de vingança e o autoritarismo, a intolerância, a sujeição. O medo. Desnudo o ser humano, o que somos todos.
É para incomodar, para doer. Com requinte e beleza.
A escolha da fotografia PB foi brilhante, reproduz dramaticidade (junto com o maravilhoso jogo de planos que abrem ou fecham numa conversa poderosa e esclarecedora) e caráter de reminiscência. E é perfeita! (há lindas nuanças de cinzas, sombras e contraluzes). Gosto bastante, também, do elenco e todas aquelas crianças tristes.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Ilha do medo.

Ilha do medo (Shutter island, 2010) do Martin Scorcese é um verdadeiro thriller até o último minuto e deliciosa reverência aos filmes B e noir , estão lá as neblinas, trench coats, ambiguidades, a base no livro de suspense (Paciente 67 de Dennis Lehane) e tal. E Scorcese é gênio na linha de cinema que escolheu pra deixar na história . E eu acho o DiCaprio o melhor da "moçada" que está por aí. E esse foi o filme que caiu redondo com um Malbec e um tacho de pipocas no último sábado de outono.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Maureen

Maureen Bisilliat, essa inglesa paulistana, constrói uma longa (50 anos) e interessante carreira no fotojornalismo e na fotografia especificamente. Produziu ensaios importantes a partir de clássicos da nossa literatura (O turista aprendiz de Mário de Andrade, Os sertões de Euclides da Cunha, Grande sertão veredas de Guimarães Rosa, obras de Jorge Amado, João Cabral de Mello Neto e outros) ou no Xingu. Ricos retratos de nossa gente, de nossa terra, do diálogo com esses nossos grandes nomes (em alguns casos, em pessoa – Rosa, Jorge Amado, irmãos Villas Boas.)

E um pouco disso está na exposição do (um tanto sisudo) Centro Cultural Sesi-Fiesp São Paulo (Av. Paulista, 1313, até 4 de julho), justa homenagem a essa artista, mestra em técnica mas também na poesia e na alegria e, ainda, que nos dá um documento histórico dessas últimas décadas, um encanto para todos aqueles que se interessam por
fotografia (que sombras! que luzes!) ou simplesmente por tudo que é beleza.

sábado, 5 de junho de 2010

Tulpan



Assisti Tulpan ao meio dia do domingo da última Virada Cultural de São Paulo, no Cine Olido, entre uns outros poucos solitários e a moçada que dormia aproveitando a sala e recarregando pilha pro fim da festa.
O filme de Sergey Dvortsevoy (Czaquistão, 2008) é uma grata surpresa e já vale a "viagem" apenas descobrir o povo cazaque, seus rostos asiáticos e, no caso, os hábitos e arranjos sociais e familiares nômades, necessários à sobrevivência num sítio seco, bruto e sua cultura encantadora, pura e curiosa, infelizmente beirando a extinção (que sobreviveu já uma vez, ao devastador stalinismo – o Cazaquistão só se tornou independente da União Soviética em 1991).

Em algum ponto da maior estepe do mundo está uma família nômade, um casal, seus três filhos e o jovem e desajeitado Asa (Askhat Kuchinchirekov), o incômodo cunhado. Asa tem um único desejo, um sonho: ter o seu yurt, as suas ovelhas, a sua mulher, a sua família. Na contramão dos outros (poucos) jovens das redondezas é lá que deseja estar: na estepe. A materialização do sonho será o seu certificado de "existência", de ocupação "legítima" diante dos outros e no lugar que entende, onde está seguro.
E escolha implica dor, que Dvortsevoy nos apresenta em uma das mais belas metáforas que já vi no cinema (um parto, e uma felicíssima sorte que resultou um plano sequência direto poderoso). É a sacação de Asa que, aliás, nos oferece momentos comoventes (o desenho-sonho na gola de marinheiro ou a mesma imagem editada através da janela do trator, entre outros).
Também a idéia de documentário-ficção foi muito feliz (80% do que vemos é real, inclusive, reza a lenda, o elenco – amador, onde apenas Samal Esljamova, Samal, a irmã de Asa, é profissional – viveu de fato naquele yurt meses antes das filmagens) resultando muitas vezes em delicados instantes de intimidade familiar (são lindas as canções), demonstração da rotina nômade e na deslumbrante fotografia que capta com realismo a beleza angustiante de horizontes infinitos, redemoinhos de areia e a desolação, o minimalismo.
Algo especial.