terça-feira, 28 de setembro de 2010

Homens, santos e desertores


Quando li o texto, no Doze peças de Mário Bortolotto, fui muitas vezes aquele homem, algumas o garoto. E sempre com um nó e um prazer redentor. Quis muito ver.
Vi sábado. Mário Bortolotto e Gabriel Pinheiro estavam no mesmo cenário que "criei", só que tinha umas luzes, uns sons e as entranhas daquelas almas se revelando entre a tensão e a ternura com arte, da boa, de arrepiar. Aí a barra pesou mais, comoveu como o diabo.
A obra do Mário e aqui nessa mostra, do grupo Cemitério de automóveis, é das poucas coisas que me entusiasmam ultimamente, dão identidade, conforto. Daí, essa comichão para escrever, mas já há os que o fazem com toda propriedade e competência e à medida do meu sentimento (li depoimentos memoráveis no Atire no dramaturgo).
Deixo reverências.
Bonus track: ver o Marcelo Montenegro na técnica. Mesmo de longe. Gosto bom de saudade de tempos no Alpharrabio ou cervejas, algumas ali mesmo depois do Kerouac numa outra Mostra. Tanto tempo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ostara

Que me contamine algum equilíbrio, as longas luzes desses novos dias. E algo que germine, minimamente que seja. Talvez, novamente, a fé no germinar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Zhivago

É estranho rever certos filmes que assisti muito jovem. Doutor Jivago é de 1965, claro, vi bem depois, mais de uma década talvez, não tenho certeza, nem é tão importante, o que ficou na lembrança é que é curioso: vagos flashs de um lacrimoso romance na neve, embalado pelo Tema de Lara (numa daquelas leituras bem bregas) e os bigodões do galã egípcio Omar Sharif. Só isso.
Hoje, a estrada ensinou coisas. Consigo até desatrelar a obra musical original de Maurice Jarre, do amontoado de versões cafonas que gerou, ouço a importância da balalaica, dos violinos, de certos crescendos em todo aquele contexto, acho bonito.
Mas o que me encanta é a fotografia. É perfeita. Há imagens poderosas. Dos grandiosos cenários gelados,

de uma sociedade brutalmente se transformando pela revolução (Revolução Russa, 1917), diante dos olhos pasmos de uma aristocracia em decadência, uma plebe cheia de sofrimento e rancor, febris ideais, lutas por poder e um mundo em guerra (Primeira Guerra Mundial),


e luzes maravilhosas cintilando a beleza fresca e trágica de Julie Christie



ou exagerando a quase inexpressividade de Sharif que dá todas as cores ao deslocamento, desencanto e candura do poeta Dr. Yuri Zhivago (que, especula-se, é o próprio Boris Pasternak, autor do romance inspirador do filme),


numa história de amor que permeia a saga.

Coadjuvam fantasticamente, Alec Guinness como o general meio-irmão de Yuri e narrador da história, e Klaus Kinski, um preso político.

Para mim, essa revolução e o desfecho a que chegou nos dias de agora faz tudo mais trágico, mais frustrante, mas isso são coisas cá com minhas utopias.

Dr. Jivago não é mais apenas aquele filme romântico da minha adolescência, é um grande filme.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Oliveira Lima

Eles não sabem que pisam a obra de Luiz Sacilotto, que naquele carrinho ao lado da Galeria estão as melhores pipocas de canjica do mundo e que na esquina da Praça do Carmo ainda há um realejo.
Tudo é muito, tudo é rápido, cego, oco.
E quando recuso a bijuteria que o inexplicável hippie me oferece num susto, ele sorri e diz que é bonita e de bom agouro a estrela de seis pontas que trago na corrente.
Escancara o risco maior: por trás da  náusea, perco a delicadeza.