domingo, 26 de dezembro de 2010

Mar

Houve um pouco de medo na trilha pela encosta, chovia e tudo era desconhecido mas a menina que ia pelo caminho ajudou com a mochila e tudo resplandecia, verdes intensos e sons fabulosos. Tinha uma alegria boba comigo, apesar do all star encharcado, das coisas se desfazendo na mala, daquela sombrinha ridícula e inútil que eu insistia. Era a desforra da sala opressiva, da prudência, quase um atalho pro "Deus me Livre" na Trindade dos 90, uma passagem no tempo.
Fui me desenterrando.

Pela Prainha Branca de águas calmas, igrejinha e farinha de conchas na areia, aldeia de pescadores cravada na Serra do Guaruru, ou Rabo do Dragão (gosto mais) da Ilha de Santo Amaro, canal de Bertioga (SP). Sopé de mata Atlântica bruta ainda recheada de pássaros, felinos, vegetação e prováveis desmoronamentos. E, enquanto não vêm os turistas de janeiro, rude, empoeirada, quase fantasma, um PF com cerveja gelada no máximo, mas no luxo sem preço de um boteco pé na areia, reggae e vista pro mar. Sempre úmida, porém fresca, calada, porém cheia dos risos dos cães de praia e daqueles por trás dos olhos paralisados.

E Maresias, São Sebastião (SP), mais ao norte. 5 km de areia grossa, solta, caminhar duro. Uns (ainda) deliciosos metros com restinga e bichos, suficientemente sozinhos para se ficar diante do mar o quanto quiser. E uns outros tantos, constrangedores, "quintal" de todos aqueles condomínios, mansões e pousadas endinheiradas, das espreguiçadeiras, guarda-sóis e garçons padronizados e meninas em série lindas, tatoos, biquínis, óculos, cabelos e gestos iguais.
Mas tinha um mar fascinante! De ondas verdes ferozes, enormes, dos surfistas, das respostas. E à noite vaga-lumes, faltava luz uns instantes e estavam todos ali, dezenas ao meu redor, fantásticos! Lembrando da minha cegueira, do meu ouvido banal (o mar noturno, que pensei motores, as cigarras que pensei serras elétricas...), do meu tempo equivocado.

Chuva, bichos, aquele mar violento e à tona a minha distância das coisas que explicam, o outro movimento do tempo, o novo chamado do corpo, as inutilidades, as riquezas nuas, as férias em Cibratel, em Figueira da Foz, na casa da Vahia de Abreu dos cheiros de amendoeira-chapéu-de-sol, macela e pão de cará, recorrentes e vitais. Isso apenas, nenhuma sorte, culpa, tratados ou bobagens "ao glitter". A única realidade é material, e a roda, a que gira eterna. Se há religião é isso, se há poesia é seca.
O resto é com o mar.

anos 60 e uma praia com sol.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Litha

do esplendor à escuridão pra só depois, de novo a luz.
o oposto sempre, em semente.
a compreender.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

1770, 16 de dezembro

Ludwig Van Beethoven nasceu em 16 de dezembro, 1770.
Bonn, Alemanha.

Na noite de 11 de dezembro entrei no coração da Sinfônica de Santo André, justo no Adagio da Sinfonia nº 9 de Beethoven ( o Adagio! não por acaso...)
Instrumentos, carnes, sonoridades, amor, fundindo a alegria absoluta. Una, enfim (e taquicárdica), naquilo que sempre compreendi, com ternura e dor.
O divino, talvez...
No ensaio, dizia o maestro Carlos Moreno que a Nona não se ouve e não se faz com pés no chão. Cria-se outra atenção (ou não). Aquela que me permitiu (com toda a mediocridade de minhas notas altas), no coro do Allegro, viver o instante perfeito. Que de tão grandioso já não é mais aquele instante é agora essa coisa em mim, alegrando meu silêncio.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Sobrevida

Súbito, o ônibus carregado de crianças barulhentas e felizes. E o bom e velho rock da Kiss, que gosta o novo vizinho pelas manhãs.
Alento. Pra voltar do sol à sala de trabalho, intoxicada pelo tédio das vozes de ladainha, desfiando suas verdades estéreis e suas pequenas crueldades.