domingo, 23 de janeiro de 2011

O ônibus, das minhas longas idas e vindas diárias, além de poltrona de leitura, é muito, de delicioso voyeurismo auditivo e conhecimento humano.
Às vezes pérolas de desinteligência:  "Paz do senhor... pois é, agora sou pastor evangélico... estou em férias... viajei sim, pra um retiro... não, não vou à praia, aquela gente seminua, bebendo, deus não gosta disso... mas a viagem foi muito boa sim, se bem que na estrada o radar me pegou, graças a deus eu tinha R$ 50,00, dei ao guarda e ele não me multou. Paz do senhor."

Às vezes a hiperbólica sabedoria popular: "O cara é mó 171, dá nó até em copo d'água."

domingo, 9 de janeiro de 2011

Ricardo e Graciela

Sei hoje um pouco mais sobre até onde ir antes de me chatear completamente. Por isso saí tão rápido do Museu da Língua Portuguesa naquele sábado. O falatório, os esbarrões, as câmeras digitais compulsivas e cegas, a exposição em si. Fernando Pessoa, plural como o universo é informativa e importante sim, dá prazer ver ali tantos jovens manuseando exemplares, pessoas em contato com a obra grandiosa de Pessoa. É bacana, é correta, é no padrão Museu da Língua. Apenas.

Mas foi na Pinacoteca do Estado que encontrei surpresa, desbunde.

O lado de lá - Angola, Congo, Benin, do fotógrafo brasileiro Ricardo Teles, apresenta 30 fotografias PB realizadas na África. Gente do povo, situações cotidianas ou rituais, muitas crianças, praias e lugares. Um deles é o Portal do Não Retorno, monumento erguido nos anos 90, na Praia de Uidá, República do Benin, em memória daqueles que embarcaram exatamente ali, escravizados, para nunca mais. A praia é o resto de terra, última coisa sua antes do navio negreiro. É a imagem que me tranca a garganta, me revira em náuseas de raiva, de vergonha. A grande tragédia de um povo sintetizada ali. (E como eu gostaria de esfregar em certas caras! e calar suas mentiras confortáveis.)

Portal do não retorno, Benin, Africa.


Ritual vudu, Benin, África. (10 de janeiro, feriado nacional da Festa Vudu, religião predominante)

As fotografias de Ricardo são perfeitas, técnicas e vivas, é possível enxergar no PB todas as cores dos desenhos daqueles lindos panos de vestir, as luzes solares nas praias, nas ruas e o que deve haver de sombrio em algumas situações. Descubro um grande fotógrafo.

" Fotos a serem vistas e entendidas não apenas como um projeto visual, aproximar esses dois mundos significa tentar entender como vivem os que estão do lado de lá para que hoje possamos reconhecer como estamos existindo nesse outro mesmo lado, o lado de cá." (Diógenes Moura, curador da mostra.)

E a retrospectiva de Graciela Iturbide, fotógrafa mexicana. PBs deslumbrantes, perturbadores, plenos em estranhamento e poesia, excertos de projetos ao longo da carreira iniciada nos anos 60.

Seris: os que vivem na areia. Imagens do povo seri (Sonora, México) às vezes fantásticas, às vezes retratos de rostos graves, mas sempre tons sombrios, desolados.

Juchitán das Mulheres. O curioso matriarcado zapoteco (Oaxaca, México), que entre outras coisas, mantém agregados os muxés, homossexuais masculinos travestidos. São apresentados retratos muito interessantes, bizarros.

México: rituais de festa e morte. As tradições católicas e indígenas rituais, como a fascinante e intrigante (para mim) Festa dos Mortos.


Em nome do pai, terríveis cerimônias de sacrifício de animais dos mixtecas (Oaxaca, México). E O banheiro de Frida, o aposento da casa-museu de Frida Kalo, fechado desde sua morte em 1954, por ordem categórica de Diego Rivera, que, finalmente revelado em 2006, é documentado por Iturbide, com o cuidado devocional que merecem as relíquias.

Paisagens e objetos, são fotos no sul dos Estados Unidos e na Índia, impregnadas de solidão e poesia.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Contramão

Na contramão das compras alucinadas, das receitas antisstress da rede globo, das alegorias kitsch dos Bancos da Paulista, o gosto bom e lento das férias em dezembro:

MASP, Wim Wenders e seus Lugares, Estranhos e Quietos. 23 fotografias gigantes (125 x 124 cm ou 447 x 178 cm) de caminhos, ou trechos de caminhos possíveis, quando se vê no banal o inesperado daquilo que já vai em corrosão, ou muito só, ou intrigante ou apenas está ali, no caminho. A beleza silenciosa que espanta, que dói e alegra, porque a beleza quando é, é torta. Ávido olhar, e parceiro.


Win Wenders, Armênia, 2008


E do acervo do museu, os fetiches,



Claude Monet, A canoa sobre o Epte

É a fotografia viva, pulsante, que sempre me comove e surpreende numa nova descoberta de luz, cheiro ou frescor.


Vincent Van Gogh, paixão.

Passeio ao Crepúsculo

O Escolar

Banco de Pedra no Asilo de Saint-Remy

A Arlesiana



(E tinha, nas árvores do Trianon, bonitas luzes azuis. )