terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Voltando a nadar


uns recortes felizes de luz e sombra. sopro fresco, na cara e na hipnótica superfície azul. cloro, suores, gritos. lembranças de alegria. 
daqui (pelo ângulo da espreguiçadeira): uma vida melhor, mais clara e chã. larga e descomplicada como chinelos de dedo. do mergulho de cabeça à lassidão, sem culpas. verão apaixona.
e devolve a esperança.

(e já sei ler no rumor a hora certa de ir, antes da tempestade)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sessão dupla

O Homem que engarrafava nuvens, do pernambucano Lírio Ferreira (Baile Perfumado, 1997. Árido movie, 2004. Cartola, música para os olhos, 2007) é um daqueles documentários que gosto: tem ritmo interessante, bonita fotografia e novidade, pelo menos para mim que, confesso, desconhecia totalmente Humberto Teixeira como o inventor do baião com Luiz Gonzaga. Só Luiz ficou no meu registro. E a música nordestina ainda me é intrigante, porque fiz para ela (e me ajudou o entorno) umas sobrancelhas carregadas por muito tempo, demorei a notá-la como gosto que seja notada toda a música e demorei a desvinculá-la da empobrecedora massificação. Então, hoje, ela sempre me surpreende e aqui (pelo meu desconhecimento) no seu esplendor. Como o baião interessou e influenciou músicos tão diversos e em tantos lugares! Cantou-se baião em espanhol, japonês, inglês, Joan Baez, David Byrne...
E esse caminho musical e histórico vai paralelo ao pessoal, através de Denise, a filha, que faz a sua viagem. De volta à relação familiar complicada, às rupturas, aos silêncios, às coisas não ditas e que já não podem. Denise Dumont, a bonita ruiva da TV da minha juventude. A filha que tenta decifrar esse pai. E o legal é que apesar de toda a carga emocional, nunca despenca no piegas, sempre há uma alegria subentendida, seja pela descoberta de respostas, seja pelo justo orgulho pela obra do artista.


É filme para lembrar, como o tocante instante em que um humilde consertador de sanfonas fala de seu ofício, com simplicidade, arte e paixão. E como é sempre bonito e solar o nosso nordeste!

Cinema, aspirinas e urubus, do também pernambucano  Marcelo Gomes, 2005, tem uma fotografia que chama a atenção de cara. As primeiras cenas trazem o automóvel e uma estrada, o exterior tem a luz estourando, quase highkey, enquanto o interior do veículo é mais definido. O sertão (da Paraíba) é esturricado, dolorido, solitário, em contraste o que é estrangeiro é novo,viceja, é feliz. Ou aparenta ser.
É um típico road movie. São seres deslocados,  aquele que é estrangeiro, aquele que se sente estrangeiro, são solitários e carregam sofrimentos. E seguem juntos por estradas, cidades, pessoas. Uma história delicada bem contada, na contramão (felizmente) do enfoque batido miséria-violência.
Peter Ketnath (Johann) é sedutor e João Miguel (Estômago), o narrador Ranulpho, prova mais uma vez que é um senhor ator.