sexta-feira, 25 de março de 2011

I wanna love you, and treat you right.

a senhora na poltrona do ônibus faz tranquilamente a higiene bucal, conferindo tudo após cada ataque de fio dental, privacidade pra que? matar de nojo os outros? que outros?
e é assim também com o nextel, com o celular viva voz ou na conversa íntima e chatérrima no último e ardido volume (geralmente conversas chatas são em tom ardido ou de ladainha).
um mundo de invisíveis, mentes zeradas. gente muita e massacrada, que encontra alívio na viseira bruta ou no desespero do alarde.
amargura diária, que as vezes se alegra assim de surpresa quando, na varanda vizinha da casa de recuperação, o rapaz solitário canta e dedilha Is this love e talvez nesse instante sinta-se mesmo limpo, apesar do rosto triste.
um instante. rápido demais pra me dar algo além de um riso amarelo.

domingo, 20 de março de 2011

Carancho

Fase de pouca escrita, ânimo pouco, às vezes filmes. E aí vem um que depois martela a cabeça dias e dias. Carancho, do argentino Pablo Trapero, é ele.
Cheio de sentidos inquietantes, dá start com a indústria de indenizações por seguro de acidentes de trânsito (o nosso DPVAT, seguro obrigatório para veículos automotivos).
Sosa (Ricardo Darín) é o cara que faz a máquina rodar: o mesmo serviço médico que socorre, avisa a "corretora" e o advogado carancho ataca, sensibiliza o acidentado ou sua familia (ingênua, desinformada, abalada) a entrar com pedido de indenização e, uma vez paga ao escritório, só uma parte ínfima chega à vítima.
Lujan (Martina Gusman) é a jovem médica emergencista que dobra plantões pesados no hospital e na ambulância e é pressionada por chefias que põem em risco a vida do paciente e, absurdamente, cobram dela eficiência.
São explorados, desamparados e solitários. À margem. Sobrevivem na intermediária do limite, Lujan  através da farmacodependência e Sosa do sonho em recuperar a licença de trabalho cassada, largar toda a sujeira, mudar-se para o interior. Um dia cruzam-se, unem-se no caos, mais que por tesão ou amor, desespero.
Crítico, ácido, brutal, existencial, o relato é engenhosamente amarrado pela fotografia (Julián Apezteguia) escura (muitas cenas são noturnas e mesmo as diurnas não são "solares"), triste e por enquadramentos angustiantes (closes, cortes, andamentos  nervosos), planos-sequência (finais) de arrepiar   e quase nenhuma soundtrack (um tango abrindo, um instrumental ali, um rock fechando, apenas), além dos excelentes atores.
Também gosto mais do título original, Carancho,  no lugar de Abutres, tem mais força, cai melhor: salvo erro já é um termo arraigado na Argentina e carancho é o nosso carcará, ave que se alimenta de carniça ou faz caça oportunista (animais fragilizados, roubo de presas), também tem hábitos solitários e alguma representação de poder (embora desprezível)
Além da qualidade do filme de Trapero e das tantas questões latentes (algumas vindo agora, ainda martelando), toca-me muito essa proximidade tão grande à realidade por onde caminho (e repugno), de corrupção, manipulações e minha total incapacidade de reação...