terça-feira, 21 de junho de 2011

Yule



Junto com o tempo, vou me reencontrando com a Natureza, sem dar conta, em silêncio, tão invisível como ele, o tempo, as frestas dilatando-se, oferecendo os sinais impressos na história recontada por minhas lembranças. Frescas de tardes, constelações, calores intensos, água muita (água sempre) e jogos de luzes solares.
O espanto das sensações inteiras revividas (cheiros, texturas, caras, lugares, eu) e as epifanias da plenitude. Se há que religar, sagra-se por aí.
Está, sempre esteve, porque vai sem ir, permanece. Leis e respostas claras, cruas, fáceis e extraordinariamente sublimes e terríveis.
Então, se ainda me desola a temporária ausência de brilho, o gris e a umidade, há a confortadora compreensão da alegria que supunha em sombras, a luz, que na verdade renasce, serenamente, da noite maior (o solstício) e haverá beleza em todos esses P&B (elegantes como as fotografias que coleciono), humor nos ventos do sul e doçura no grande silêncio das noites geladas.
Apenas vigia, o pai de toda cor. mas quer coragem.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O mundo imaginário do doutor Parnassus


No O mundo imaginário do doutor Parnassus, de Terry Gillian (Monty Python), está presente mais uma vez a luta entre o bem e o mal, a negociação pactual com o diabo que aqui é contada como  fábula, numa atmosfera onírica. a interessante fotografia sombria, esmaecida oscilando com cores bregas. o cenário londrino úmido, triste e contemporâneo contrapondo-se ao figurino anacrônico, engraçado, esfarrapado e seboso da trupe mambembe. a alegria ingênua do espetáculo fantástico por ruas de uma realidade hostil.
O "bem" vem representado pelo milenar dr. Parnassus, Christopher Plummer, o "mal" é o diabólico sr. Nick, o impagável Tom Waits. a dualidade também está entre a linda mocinha Valentina, a carinha de porcelana Lily Cole e o malandro sedutor Tony, Heath Ledger. 
Um mundo que apenas segue. governando-se. a imaginação a iluminar, transformar a vida.  vida que subsiste à custa da exploração de sua própria miséria (a criança de terceiro mundo, a mulher pelada, o comércio de órgãos e tal).

Há crítica, sim, mas tudo está nas entrelinhas, com muito humor. os estereótipos são quebrados no humor. consta, inclusive, que Gillian  teria declarado que muitos dos diálogos cômicos foram improvisados por Heath Ledger, durante as gravações. não duvido, para mim Ledger foi a mais lamentável perda de nosso cinema atual. 
Ledger morreu antes do filme finalizado e a saída, depois do baque, foi modificar o roteiro. Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law foram escalados e a solução interessante (um pouco brochante para mim, embora, pela inevitável comparação, evidencie ainda mais as qualidades de Ledger.). 
Detalhe comovente: Depp, Farrell e Law optaram por conceder seus cachês à Matilda, filha de Ledger, ainda não incluída em seu testamento e Gilliam alterou os créditos de "um filme de Terry Gilliam" para "um filme de Heath Ledger e seus amigos". acho isso bonito.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

A feira livre do Alvorada

se pudesse não entrava em supermercado, gosto mesmo é de feira livre, do espaço aberto,  chinelo arrastando, a familiaridade, as receitas, as piadas clássicas, atrevidas. daquela policromia e tantos cheiros (no supermercado tudo cheira a supermercado), nacos suculentos de se provar ou frutas e pequenos pastéis (imbatíveis) que se descobre a mais, depois, enfiados com toda a compra. 
quando saí no mundo tive a sorte, perto da primeira casa que fiz, da feira da Consolação, ali atrás do cemitério ou a da praça Roosevelt, aos domingos. possivelmente não existem mais, eram anos 80 e de lá para cá já fiz outros caminhos e casas. hoje, bem à porta, está o grande barato de todas as minhas férias e feriados.