quinta-feira, 28 de julho de 2011

"Caia fora do contexto, invente seu endereço"


saí do cinema de bem comigo. como é, sempre que driblo o desejo maior de correr pra casa, não encarar aquela multidão, a volta maçante. Sampa sempre vale, devolve a dignidade. da mesma forma, Daquele Instante em Diante, celebrando Itamar Assumpção. 
conheci a obra de Itamar tardiamente, anos 90, mas tive sorte, pela mão de amigos apaixonados e maior, de assisti-lo ainda em dois shows. também me apaixonei, é visceral, inventiva. contundente e lírica. deliciosamente casada a sua figura febril, sua entonação original e inconfundível. não entrar no mainstream era inevitável.
o grande artista Itamar está eternizado nos discos e em registros de imagem que ficaram, hoje ao alcance na internet a todos os jovens curiosos e interessados em música de primeira qualidade. o belo documentário de Rogério Velloso desvenda, principalmente, o homem, através de suas pessoas queridas, devagar, entre um cafezinho coando-se, a panela de barro fumegante de uma filha, um sofá, um quintal. com delicadeza, carinho. canções, saudades.
diria que ainda estamos de bem, eu e esse grande nó na garganta, arrebentado quando ele cantou a capella, perto do fim, a Dor Elegante do Leminski, poema tão cheio de significados para mim. porque ampliou o entendimento e revelou que será sempre assim, sem mistérios, para aqueles que nunca se ajustarão.

"Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal, do sal, do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre."

(dois fragmentos de Milágrimas, Alice Ruiz e Itamar Assumpção)

domingo, 3 de julho de 2011

Noite de São João, para além do muro do meu quintal.


Na casa da Alameda São Caetano havia um dia em junho que, com restos de madeira de todos os cantos da vizinhança, erguíamos aquela que iria arder na grande razão da noite de festa. Era no terreno atrás dos muros do nosso quintal, a faixa de terra estendida até o córrego (o Rio Tchibum, como dizíamos) que hoje repousa,  inacreditável, sob a via expressa da Prestes Maia.
O portão de madeira proibido, só se abria em ocasiões como essa ou quando meu pai, depois de aparada a grama e tiradas as folhas mortas do quintal, saía para queimá-las ou buscar esterco seco para adubo, íamos todos. Às vezes chegávamos até a margem de barro do rio e trazíamos matéria para moldar coisas que entendíamos como bichos, pessoas, objetos, e girinos capturados na esperança da metamorfose em sapos (sempre morreram prematuros). O asfalto da D. Pedro II era o limite.
Para a festa, traziam os vizinhos (dos quais nunca nos aproximamos de fato) tigelas de pipocas, arroz doce, canjica e batatas-doces para as brasas. Havia pequenos balões de seda e tocha de cera (que, para minha tristeza, sempre queimavam antes de alcançar altura), bombinhas, estalos, fósforos de cor e umas coisas encantadoras que chamávamos de estrelinhas, um micro bastão de fogo de artifício que se desmanchava em luzes nas nossas mãos. Tinham os cheiros de pólvora, de lenha, do limão raspado sobre o arroz doce, de gengibre e canela. E o conforto hipnotizante daquela fogueira enorme (tudo era grande, então), troncos carbonizados desmoronando, partículas de brasas trincando. E eu queria que ríssemos mais, ou cantássemos e  fizéssemos uma quadrilha até o fogo apagar. Isso nunca aconteceu.
Vieram depois as fitas entrelaçadas nas danças circulares de escola, uns vestidos engraçados, adivinhações e simpatias para Santo Antonio e um certo casaquinho de nylon, branco e rosa, com mangas enormes de pelo sintético, justinho na cintura e delicioso cheiro de roupa nova de loja bacana (usei pouco, muito over, mas jamais esqueci) para arrasar na boatinha da quermesse do Américo. Coração a mil.

Atavismo ou apenas encanto, até hoje me alegro nas festas de junho, ouço os rojões, quero estar lá. Ontem fui, tardia (já julho), à quermesse do Carmo, tinha algum ânimo ainda, saía do ensaio com o coro e a noite estava boa. A praça da catedral tem bonitas árvores, embora bancos sujos de pombos e  amplificadores que vomitavam o sertanojo óbvio, mas as barraquinhas animadas por todas aquelas beatas tão gentís, honraram a tradição: quentão impecável, churrasquinho com vinagrete, canjica.
Noite de festa, apenas eu um pouco mais sozinha.