terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Silent day

as janelas da sala e da cozinha são as maiores e se comunicam. tá tudo assim tão claro, morno e quieto. um resto de pomarola (de um dia cinza), o conhaque que ficou na cabeceira, as folhas de coentro e o azeite. a cozinha redentora. aqui do outro lado.

domingo, 5 de agosto de 2012

Nightmare


Eles pediram “vai, some! não olha pra trás” e afundaram, unidos, respirando um no outro.  Fui muito longe, sem olhar, mas não sei, uma hora enlouqueci e corri.
Eles estavam quietos, flutuando quase abraçados, era até bonito de ver. Puxei, ele primeiro, depois ela. Respirou e me olhou muito triste. Ela continuou imóvel, sorria.

domingo, 24 de junho de 2012

Grace, uma prece




"É uma canção sobre morte, não sobre o temor à morte, Grace é, basicamente, uma oração de morte, não de tristeza, mas de libertação do medo de morrer. Porque não há saída, não há milagres, apenas viver.Até a hora de ir. " Jeff Buckley



A lua pede para ficar
Até que as nuvens me levem para longe.
É minha hora chegando.
Não tenho medo de morrer,
Minha voz enfraquecida canta o amor.


Mas ela implora, ao relógio que pulsa:
"Oh, tempo, espere no fogo!"
E, com tristeza, caminhando para a Luz,
Ela chora em meus braços:
“Vamos beber um vinho, podemos partir amanhã, meu amor!”


A chuva cai,
Sei que a hora chegou.
Ela me lembra de que a dor ficará para trás:
"Espere no fogo..."
E inunda meu nome
Com um beijo. 
E então,
É tão fácil entender.
E esquecer.
Não tenho medo de partir, por que demora tanto?


("Grace", canção composta por Jeff Buckley e Gary Lucas, em minha tradução livre, com a colaboração preciosa de minha irmã, Nora, tradutora e revisora de primeira.)





in The Late Show da BBC, com o corte mal feito no início e a falação chata da inglesa,mas "ao vivo", porque tem que ser:


domingo, 3 de junho de 2012

Song to the siren

Jeff Buckley, film still, NY. 1995. in ZippyBites.com


gosto de pensar em um resto de primavera quente, a noite boa. talvez uma bola rápida, o boombox, as canções e o gramado além da marina, rente ao rio. você pode ter se lembrado de "Alligator Wine", feito aqueles sons de bichos, bem alto, ou todas as caras e gestos engraçados que vêm com suas imitações, gargalhando de si mesmo. e corrido de repente para a água, de sacanagem, rindo seu grito de raiva e ironia. pra flutuar, mãos brancas estendidas, botas negras balançando devagar, quase no tempo daquela longa e cristalina fermata que você equilibrava no sorriso. longe, você viu um relâmpago. e o Wolf  te desejou.
gosto de pensar que foi assim.





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

em dezembro


instantâneos
eles passam por mim, esses hoteizinhos beira-rodoviária, sinto o mofo maquiado por desinfetante ordinário, nos estofados. se fechar os olhos. 
natal de papais-noéis plásticos inflados, cafonas e deprimentes, ali nos postes, enforcados com os enfeites de recicláveis.
acompanhando a ciclovia longa e boa, a bicicleta arrisca o asfalto, inexplicável.

insurgência
o motorista ajudante fez merda, eu vi, quase todo o ônibus viu, ali da calçada de Bertioga, última parada. deixou morrer  engatado, deu um tranco, encostou no carro da frente. riu, zoou. só brincadeira, besta, mas seria, se o ônibus voltasse a rodar, se a gente seguisse viagem. despressurizou, estragou. 
e o meu projeto de praia para aquela tarde.
quando a paciência esgotou, organizamos movimento e família: a Beth, eu, a Clarice, a Maria Clara, a mulher tímida e amável, o casal de Londrina, os suecos, o rapaz lindo de olhos azuis. a Litorânea desconversou,  jogou panos mornos, suou. infernizamos, difamamos, fomos à forra.
às 20 horas pisei a areia da praia, ventava e o céu era laranja. esqueci a vingança.

paúba
fotografia: ângulo 1: enseada azul-verde marinho + areia branca de doer o olho, o rio escuro descombinando e aquele punhado de urubus, nem aí, recombinando.
fotografia: ângulo 2: fundo contraluz = montanha sexy e protetora. do mar, essa criança corre para mim, feliz porque me reconhece. meu coração pelo chão.

baleia
essas mansões todas, imensas e desertas e seguranças pela areia, manifestos, constrangedores, brocham o plano de andar até a outra ponta, além da bruma, pelo mar das meninas surfistas.
  
santiago
tucanos, sim eram tucanos! ali diante do meu nariz. solenes e livres iguais ao vira-lata que mijava em minha mochila, iguais ao lugar todo, deserto e calmo debaixo do céu tenso de mormaço.
e nós tomamos banho de bica, falamos e falamos e olhamos o mar, da areia clara, “ali a Ilha da Tartaruga, lá Alcatrazes”, ela dizia. depois, o pôr do sol, para aquela nossa grande amizade de um dia.

rehab
sempre pensava nessa palavra quando pensava nessas coisas e quando anotava fragmentos em tíquetes ou no bloquinho da bolsa quando tinha a sorte de encontrá-lo e à ponta da lapiseira.
digitei, reli, imprimi, rabisquei. em dezembro, em janeiro, em fevereiro. 
começava até bonito: contava sobre os passarinhos descarados roubando migalhas em minha mesa de café no hostel, sobre os caranguejos quase microscópicos e suas pinças encorajadoras no encharcados das trilhas, sobre os sorridentes e desinteressados caiçaras acenando "bons dias" pelas travessas desertas, sobre a alegria ingênua do casal colombiano ou o inesperado beijo na mão daquela criança quando me deu adeus. e tudo se lançava em uma conclusão esperançosa de que eu voltara outra. 
nunca acreditei. não foi "rehab" nenhuma, alguns instantes de Graça sim, mas "rehab" nenhuma. 

eu só não tenho sonhado o mau sonho de nunca chegar a lugar algum. talvez estou aprendendo que não há lugar algum a chegar. talvez estou aprendendo que não preciso de tantas coisas.



(foto: Google imagens)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"O Trem da Alegria promete-mete-mete-mete, garante que o riso será mais barato,dora-dora-dora em diante que o berço será mais confortável, que o sonho será interminável, que a vida será colorida, etc e tal. Que a Dona Felicidade baterá em cada porta, e que importa a Mula Manca se eu quero?!" (A felicidade bate a sua porta, Gonzaguinha)

 “’Nós inventamos a felicidade’, dizem os últimos homens e piscam entre si. Abandonaram as regiões onde é duro viver: pois a gente precisa de calor. Adoecer e desconfiar, eles consideram perigoso: a gente caminha com cuidado. Louco é quem continua tropeçando com pedras e com homens!” Nietzsche.

“Você é feliz ou tá fora do jogo!” Grita nosso último homem e crava esse riso a ferrete. Segue o rebanho em marcha, reto, o mantra entre dentes: “Sou feliz, sou feliz! E se sou feliz, vivo!” Está garantida a vitória, a sanidade, a beatitude. Não, não queira pensar, duvidar, franzir a cara. Ou meta-se lá com os párias.

Haverá quem prefira a margem, o solo movediço, inconstante, sulcado de dor e alegria. A vida crua, que não vende cerveja na TV, não tem botox na cara (eternamente risonha) ou silicone na teta, não é o mais novo  guerreiro/vencedor de um BBB, nem o final feliz da novela.

Desse lado é mais silencioso talvez, sem opiáceos, menos frenético. Mas fértil, pulsante e vibra, sim, vibra.  Aqui felicidade não é meta a se cumprir. Aqui ela está brigando pau a pau com o tédio, com o sofrimento, por uma lasca desses vinte e quatro pedaços cotidianos que a Terra oferece, enquanto não desistir de girar em torno de si e enquanto a gente estiver pela superfície.  

Então, riam bastante últimos homens, riam também de mim, não me interessa, essa liberdade, essa me interessa.