segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

em dezembro


instantâneos
eles passam por mim, esses hoteizinhos beira-rodoviária, sinto o mofo maquiado por desinfetante ordinário, nos estofados. se fechar os olhos. 
natal de papais-noéis plásticos inflados, cafonas e deprimentes, ali nos postes, enforcados com os enfeites de recicláveis.
acompanhando a ciclovia longa e boa, a bicicleta arrisca o asfalto, inexplicável.

insurgência
o motorista ajudante fez merda, eu vi, quase todo o ônibus viu, ali da calçada de Bertioga, última parada. deixou morrer  engatado, deu um tranco, encostou no carro da frente. riu, zoou. só brincadeira, besta, mas seria, se o ônibus voltasse a rodar, se a gente seguisse viagem. despressurizou, estragou. 
e o meu projeto de praia para aquela tarde.
quando a paciência esgotou, organizamos movimento e família: a Beth, eu, a Clarice, a Maria Clara, a mulher tímida e amável, o casal de Londrina, os suecos, o rapaz lindo de olhos azuis. a Litorânea desconversou,  jogou panos mornos, suou. infernizamos, difamamos, fomos à forra.
às 20 horas pisei a areia da praia, ventava e o céu era laranja. esqueci a vingança.

paúba
fotografia: ângulo 1: enseada azul-verde marinho + areia branca de doer o olho, o rio escuro descombinando e aquele punhado de urubus, nem aí, recombinando.
fotografia: ângulo 2: fundo contraluz = montanha sexy e protetora. do mar, essa criança corre para mim, feliz porque me reconhece. meu coração pelo chão.

baleia
essas mansões todas, imensas e desertas e seguranças pela areia, manifestos, constrangedores, brocham o plano de andar até a outra ponta, além da bruma, pelo mar das meninas surfistas.
  
santiago
tucanos, sim eram tucanos! ali diante do meu nariz. solenes e livres iguais ao vira-lata que mijava em minha mochila, iguais ao lugar todo, deserto e calmo debaixo do céu tenso de mormaço.
e nós tomamos banho de bica, falamos e falamos e olhamos o mar, da areia clara, “ali a Ilha da Tartaruga, lá Alcatrazes”, ela dizia. depois, o pôr do sol, para aquela nossa grande amizade de um dia.

rehab
sempre pensava nessa palavra quando pensava nessas coisas e quando anotava fragmentos em tíquetes ou no bloquinho da bolsa quando tinha a sorte de encontrá-lo e à ponta da lapiseira.
digitei, reli, imprimi, rabisquei. em dezembro, em janeiro, em fevereiro. 
começava até bonito: contava sobre os passarinhos descarados roubando migalhas em minha mesa de café no hostel, sobre os caranguejos quase microscópicos e suas pinças encorajadoras no encharcados das trilhas, sobre os sorridentes e desinteressados caiçaras acenando "bons dias" pelas travessas desertas, sobre a alegria ingênua do casal colombiano ou o inesperado beijo na mão daquela criança quando me deu adeus. e tudo se lançava em uma conclusão esperançosa de que eu voltara outra. 
nunca acreditei. não foi "rehab" nenhuma, alguns instantes de Graça sim, mas "rehab" nenhuma. 

eu só não tenho sonhado o mau sonho de nunca chegar a lugar algum. talvez estou aprendendo que não há lugar algum a chegar. talvez estou aprendendo que não preciso de tantas coisas.



(foto: Google imagens)