segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Strange Fruit


(Abel Meeropol, Robert and Michael)

Strange Fruit é um poema de horror e revolta escrito na segunda metade dos anos 30 por Abel Meeropol, professor do Bronx, estarrecido diante das constantes perseguições e mortes de negros naquele tempo e, principalmente, sob o impacto da terrível imagem de Thomas Shipp e Abram Smith linchados e enforcados em Indiana, registro fotográfico de Lawrence Beitler que corria o país.

Além de professor na escola pública, poeta e compositor (com o pseudônimo Lewis Allan, prenome dos dois filhos que gerou e que nasceram mortos) esse americano de origem judaica defendeu o pensamento comunista, humanitário e os direitos civis, embora vigiado de perto a partir dos anos 40 e adotou, no auge do macarthismo, Robert e Michael, órfãos de Julius e Ethel Rosenberg (executados em 1953 sob suspeita de espionagem russa), crianças rejeitadas pelos próprios parentes assustados.

É esse o homem: capaz de criar um poema-canção tremendamente contuso e congelar diante de brotos de arbustos descobertos no passatempo-ritual absolutamente americano da poda de jardim. Incapaz de cortá-los (matar), paciente recolhia, transformava em mudas e distribuía pela vizinhança. 

Billie Holiday eternizou uma Strange Fruit dilacerante. Nina Simone ou Siouxsie and the Banshees também têm versões fortes. E dia desses encontrei esta, um registro muito cru, gravado em DAT, início dos anos 90. Violão, voz, um microfone de estação de rádio. Apenas. Mas com dor suficiente.

(KCRW show "Man In The Moon", 04.01.94, Jeff Buckley plays Strange Fruit) 


Southern trees bear a strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze, Strange fruit hanging from the poplar trees. Pastoral scene of the gallant south, The bulging eyes and the twisted mouth, Scent of magnolias, sweet and fresh, Then the sudden smell of burning flesh. Here is fruit for the crows to pluck, For the rain to gather, for the wind to suck, For the sun to rot, for the trees to drop, Here is a strange and bitter crop.


As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto, sangue nas folhas e sangue na raiz. Um corpo negro balançando na brisa sulista, estranho fruto pendurado nos álamos.Cena pastoral no galante Sul, olhos esbugalhados e boca torcida, perfume de magnólia doce e fresco, então, o repentino cheiro de carne queimada! Aqui está o fruto para os corvos arrancarem, para a chuva recolher, para o vento sugar, para o sol apodrecer, para as árvores derrubarem. Eis aqui uma estranha e amarga colheita.