terça-feira, 1 de julho de 2014

A primeira vez era maio, mar nervoso, praia de tombo impossível e ondas noturnas estremecendo o quarto. Em dezembro serenou e eu dancei com Janaína. E Oyá, em abril, fechou o sol por um minuto e me saudou com fúria divina.
Sinais violentos de beleza e vida. Para lavar a rotina rasteira sem cor, música, perfumes ou deslumbramentos. E ressuscitar os sentidos para a maresia, a leitura das horas no hábito dos bichos, a alegria das luzes da tarde (ativadoras de lembranças eternas) e os contraluzes e metais do anoitecer no mar.
Quem me trouxe foi o tempo, a desistência, o cansaço (acho que o banho no Ganges não vai mesmo rolar), o mar atávico, a luz solar. Na contramão das temporadas.

“E posso dizer que amo a natureza – não gosto das grandes cidades e sinto-me perfeitamente feliz quando estou longe da parafernália da civilização moderna, exatamente como me sentia maravilhosamente bem na Rússia, quando estava em minha casa no interior, com trezentos quilômetros separando-me de Moscou. A chuva, o fogo, a água, a neve, o orvalho, o vento forte – tudo isso faz parte do cenário material em que vivemos; eu diria mesmo da verdade das nossas vidas. Por isso, fico confuso quando dizem que as pessoas são incapazes de simplesmente saborear a natureza quando a vêem representada com amor na tela, e que, em vez  disso, procuram algum significado oculto que imaginam estar nela contido."
(Andrei Tarkovski - Esculpir o tempo, que descobriu esse lugar comigo em maio de 2013.)

Boiçucanga